No último dia 12/07, o diplomata Alexandre Vidal Porto deu entrevista para o Programa do Jô, falando, entre outras coisas, do texto de sua autoria publicado na Folha de SP, no dia da Parada Gay daquela cidade. A entrevista e o texto chamam atenção pela qualidade de sua “aparência”. São extremamente polidos e bem executados, mas em contrapartida parecem carregar em si uma mal disfarçada “necessidade de aceitação” da homossexualidade pela sociedade.

Para pensarmos sobre eles, seria interessante que possamos ter lido/visto ambos antes de continuarmos. Por isso:

Não é preciso ser diferente para ser gay
por ALEXANDRE VIDAL PORTO para Folha de São Paulo

Associar a homossexualidade à transgressão e ao excesso pode ter valor estético, mas tem efeito negativo sobre o ritmo do processo político

Os homossexuais podem se tornar invisíveis. É só saberem dissimular ou mentir. Quando a primeira Parada Gay de São Paulo surgiu, um de seus objetivos era, justamente, dar visibilidade à parcela da comunidade LGBT que queria afirmar sua existência e entabular um diálogo com a sociedade.

O viés era político. O slogan da parada, “Somos muitos e estamos em todas as profissões”, equivalia a uma apresentação. Os manifestantes queriam mostrar quem eram e o que faziam. Reclamavam participação no processo jurídico-social e pediam proteção contra o preconceito e a discriminação. Eram 2.000 pessoas, e o ano era 1997.

Desde sua primeira edição, no entanto, o aspecto político do evento foi cedendo espaço ao carnavalesco. A Parada Gay de São Paulo transformou-se em uma grande festa. A maior de seu gênero no mundo. Atrai número de pessoas equivalente à população do Uruguai.

Movimenta centenas de milhões de reais. A expectativa é de que traga mais de 400 mil turistas à cidade.

Explica-se o fenômeno da carnavalização da Parada com o argumento de que os gays são “divertidos”. A utilização desse estereótipo, contudo, contribui para mascarar a irresponsabilidade cívica e a alienação política de parte da comunidade LGBT.

Carnavalizar é fácil e agradável, mas é contraproducente.

O estilo exagerado que alguns participantes preferem adotar é legítimo e respeitável. Mas presta um desserviço para o avanço dos direitos à igualdade. O caráter festivo e a irreverência tiveram valor simbólico em um tempo em que a rejeição social contra a homossexualidade era incontornável. Acontece que as coisas mudaram.

Os milhões de pessoas que comparecerão ao evento na avenida Paulista deveriam ter presente a responsabilidade cívica de conquistar corações e mentes para a sua causa. O aspecto político da Parada exige certa sobriedade, ao menos em respeito às vítimas cotidianas da homofobia, no Brasil e no mundo. Hoje, o peso do discurso político tem de ser maior que a vontade de dançar.

A aceitação da homossexualidade pela opinião pública está vinculada à convivência com pessoas abertamente gays. Mostrar-se é importante. Nessa batalha, é mais estratégico exibir a semelhança. É mais difícil para o mundo identificar-se com o ultrajante.

Não se trata de exibir a orientação sexual, mas de garantir o direito pleno à liberdade de exercê-la. Associar o conceito da homossexualidade à transgressão e ao excesso pode ter valor estético, mas tem efeito negativo sobre o ritmo do processo político.

Para gente que cresceu com uma escala de valores antagônica aos direitos humanos dos LGBT, o comportamento escandaloso exibido tradicionalmente nas paradas equivale à retórica raivosa de um Jair Bolsonaro. O papel da Parada é mostrar que os homossexuais são serem humanos comuns, que têm direito a proteção e respeito, como qualquer outro cidadão.

Ninguém precisa ser diferente para ser gay. Não é necessário transformar-se na caricatura de si mesmo.

ALEXANDRE VIDAL PORTO, mestre em direito pela Universidade Harvard (EUA), é diplomata de carreira e escritor.

Chamei a atenção para o bom “acabamento” do discurso de Alexandre porque eu mesmo, num primeiro momento, fiquei seduzido por sua fala doce e sua lógica. Mas, parando para olhar um pouquinho mais de longe, comecei a estranhar alguns termos e colocações tão gentilmente colocadas.

Meu primeiro choque foi sua proposta de “nos tornarmos invisíveis”. Ora, nós já somos invisíveis. Ou, pelo menos, é o que a maioria da população quer que aconteça. Quantas vezes já escutamos a sentença “O que eles fazem entre quatro paredes não me interessa, mas na rua, que se comportem”?  Quantas vezes somos obrigados a frequentar clubes/boates em lugares com “menos visibilidade” porque não é de bom tom que um professor/médico/advogado seja visto entrando num local gay?

Depois, o discurso segue pregando a necessidade de sermos “comuns”, de não exibir nosso “comportamento escandaloso” e termina por atacar aos homossexuais chamando-os TODOS de alienados politicamente e solicita que não sejamos “caricatos” e afirma que caímos na armadilha da “transgressão”. Na minha opinião, Alexandre é quem cai na armadilha da “generalização”. Ele, na ânsia de provar que “estamos todos indo no caminho errado” acaba por não ver a DIVERSIDADE que a comunidade gay representa.

Não há dúvidas de que a generalização é uma das formas mais tristes e eficazes (porque não dizer) de dominação. Tratar aos homossexuais como “aqueles de peruca azul e sapato plataforma” é sim, contraproducente. Ao mesmo tempo, não somos todos “diplomatas”. Não somos todos “iguais”. Existe sim uma gama de “opções” de postura e visibilidade que DEVE ser respeitada.

Não estou aqui para “defender” a Parada Gay de SP. Acredito que os organizadores da mesma saibam da sua atual situação e se mostram preocupados em retornar a um viés mais político que ela já teve algum dia. Mas, talvez o que falte na Parada de SP é “contraste”… Encontrar os momentos de discussão política, da atuação precisa e reivindicação claras. E encontrar também os momentos de transgressão estética (só para usar os termos do próprio Alexandre).

Ou, talvez ainda, aqueles que fazem a cobertura da Parada poderiam escolher mostrar a variedade que existe lá e não mostrar somente as mesmas fotos dos carros e drag queens que, vamos admitir, ficam muito mais “exuberantes” nas capas dos jornais e portais.

Alexandre gosta tanto de New York, mas parece esquecer que as paradas americanas também são famosas pela participação dos Bears e Leathers, da galera de moto e das sapatonas com os peitos de fora!!! …. e nem por isso a participação política deles é menor ou esvaziada por causa disso.

Em todas as poucas vezes que participei de alguma parada, fui vestido da mesma forma que me visto no dia-a-dia. Não vou colocar um terno e gravata somente para aparentar mais “sociável”. Minha luta árdua (pessoal, ideológica e profissional) foi, e continua sendo, para descobrir minhas “especificidades”. Minha busca é descobrir o que me torna um ser humano único e de que forma eu posso “contribuir” para que a sociedade aceite a diversidade que a espécie humana contém.

Impor normas de vestimento/conduta/comportamento é uma idéia tão reacionária e fascista que fica até difícil assimilar que ela possa ter saído de um homem com uma aparência tão “sociável” quanto a de Alexandre.

Em nenhum momento da minha vida tive como “ideal” me tornar igual aos outros somente para ser aceito. Pelo contrário, em todas as vezes que afirmei minhas “diferenças” foram os momentos em que pude debater e dialogar sobre as minhas reais necessidades e as daqueles com quem me relacionava.

Moldar-se aos desejos dos outros na busca pela aceitação é uma atitude hipócrita. Aprender a exercitar a convivência a partir da diversidade de existências é, na minha opinião, mais difícil… mas também, mais honesto.

Filed under: Conscientizando!,Pensando! | MaxReinert | July 18, 2011 Comments (8)

8 Comments

  1. Achei a entrevista muito interessante e mais esclarecedora do que o artigo do jornal. Aqui,em Lisboa, a parada gay, vai na sua 12ª edição e embora sempre crescendo, não tem a mínima comparação com a se S.Paulo, talvez a maior do mundo.
    Mas aqui, o “folclore” é muito pequeno e há sim um lado muito interventivo e de afirmação de normalidade, com o qual eu concordo.

    [Reply]

    MaxReinert Reply:

    Para ser sincero, achei a entrevista interessante….mas quando cheguei ao texto, me decepcionei um pouco.

    Espero que seja somente um problema de colocar as coisas no papel… elas acabam por ficar muito parciais, principalmente numa publicação como a FSP com suas limitações de tamanho e etc…

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    Comment by Pinguim — July 18, 2011 @ 5:36 pm

  2. “Apenasmente…” Então tá, né?

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    MaxReinert Reply:

    Oi, Bob?

    Onde vc encontrou esse “apenasmente”?

    Não entendi seu comentário….

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    Comment by Bob — July 22, 2011 @ 7:15 pm

  3. Sinceramente não vi nada de errado no texto. Realmente o esteriótipo escandaloso escolhido por alguns gays reforça a idéia de que os gays são mesmo diferentes e alimenta (mas evidentemente ecausa) o comportamento homofóbico de alguns.

    A compreensão vai nascer quando todos descobrirem que temos mais afinidades do que diferenças. O processo de inclusão do gay na sociedade está, portanto, invertido.

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    MaxReinert Reply:

    Olá Zezinho…

    Não sei se você é gay ou não, mas vamos ao que eu não concordo no texto e no seu discurso:

    O texto (e você também) prega que existe uma maneira “certa” e uma maneira “errada” de se comportar. Que a maneira certa é homem vestir-se/comportar-se sobriamente e a mulher deve/tem que também seguir certos padrões.

    Eu não concordo com isso. Eu acho que, desde que não desrespeite ou cause dano à outros, cada um deve ter o direito de se vestir/comportar como quiser.

    Seu comentário ainda soma o conceito de escolha. Para você existe o “esteriótipo escandaloso escolhido por alguns gays”. Também não concordo. Acho que cada um age de uma maneira, resultado de suas vivências, educação, etc. E nisto não estou me referindo somente aos gays.

    Você parte do princípio de que podemos “escolher” nosso jeito/temperamento. Eu não acho. Acho que podemos sim escolher estar dessa ou daquela forma em “determinados momentos”, mas convenhamos viver durante todo o tempo se policiando para não ser “escandaloso” é cansativo demais. E por que não dizer, desumano.

    [Reply]

    Comment by Zezinho — July 23, 2011 @ 12:02 am

  4. Gostei muito da entrevista do Alexandre Vidal no Jo soares, mas nao concordo quando ele diz que devemos (nos LGBT) nos comportar de maneira padronizado,ou seja, de acordo com os “ditames” sociais, os mesmos que nos alija…Existe diversidade de comportamento na parada de Sao Paulo, resta a media tambem mostrar que muitos homossexuais ali presentes nao estao travestidos.Embora, travestir-se e um direito que cabe a cada homossexual enquanto cidadao.Alias, o nosso discurso e reividincacao estao ligados a igualdade de direitos.Portanto,devemos ser mais diretos na questao de justica social sem perder a animacao e o sentido de liberdade individual.

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    gilsom Reply:

    Desculpe me os erros de portugues,pois estou escrevendo de um computador programado em ingles :-)

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    Comment by gilsom — November 27, 2011 @ 11:03 pm

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