Hoje de manhã estava acontecendo uma reunião da Comissão de Direitos Humanos no Senado sobre a aprovação da PLC 122 que propõe punir a discriminação aos homossexuais e eu recebo, via Twitter, a mensagem acima.

Pelo que eu entendi, havia uma crítica ao Senador Cristóvão Buarque por ele defender que as instituições religiosas tivessem o direito de dizer/pregar/achar que a homossexualidade é pecado. Daí eu penso… mas o Senador está corretíssimo!!! Existe uma grande confusão no Brasil entre “ter direitos” e “cometer um crime”. Mas, será que essa linha é tão tênue assim?

Uma coisa é afirmarmos que o estado é laico, que suas decisões devem ser tomadas sem a interferência de nenhuma crença ou religião. Que as decisões dos juízes devem ser tomadas com base na constituição da nação e sem dar “atenção” aos clamores populares. O STF acaba de fazer isso ao decidir (ao contrário da opinião da maioria dos brasileiros e sob uma enxurrada de protestos de religiosos fundamentalistas) reconhecer a união homoafetiva. Outra coisa é querermos controlar o pensamento das pessoas “achando” que elas devem pensar da mesma forma que nós. E muita gente (ativistas LGBT incluídos) caem neste erro.

Um estado totalitário ou fascista quer impor à sua população um pensamento hegemônico. Ele pune, através de diversas formas, aqueles que propõem um pensamento que não está de acordo com suas ideologias. Muitas vezes essa punição não é feita nas instâncias criadas para este fim. O “linchamento público” é uma das formas de se exercer a “lei da maioria”, que não necessariamente é a lei que deveria reger a maioria.

Um estado democrático tenta preservar as individualidades pessoais e encontrar quais são os limites para a convivência entre as “partes”, dentro dos limites das leis.

Sinto muito, mas existem sim religiões (ou pastores/padres/cristãos) que consideram a homossexualidade um pecado. A liberdade de crença religiosa prevê que eles têm o direito de achar isso. Eu acredito que eles têm o direito de proclamar a sua fé. (Mesmo achando a maioria dos evangélicos uns chatos, eu acredito que eles têm o direito de se alienar daquela forma.) Se você é gay e cristão e não acredita que a homossexualidade é um pecado, talvez você tenha que mudar de religião ou de Igreja. Nem todos os “que crêem” são iguais.

Por que os religiosos não deveriam poder ir para a rua fazer uma “marcha cristã heterossexual” se nós podemos fazer uma das maiores marchas de orgulho gay do mundo? Dois pesos? Duas medidas?

Agora, ATENÇÃO, vão para a rua reinvidicar/apoiar/louvar o que eles acreditam e não xingar ninguém… porque:

O que eles não têm o direito é de me agredirem em um local público. O que eles não têm o direito é de importunar as pessoas com suas “verdades inquestionáveis”. O que eles não têm o direito é de impedir que as crianças sejam educadas de forma clara sobre questões ligadas à sexualidade. O que eles não têm o direito é de me negar viver a minha sexualidade de forma plena, inclusive querendo me impedir de demonstrar afeto em público. O que eles não têm o direito é de incitar o preconceito e a violência contra os homossexuais. O que eles não têm direito é de vincular a homossexualidade a uma série de doenças, entre elas a pedofilia.

Existe uma grande diferença em dizer que “sua religião considera a homossexualidade um pecado” e dizer que “sua religião considera a homossexualidade uma doença”, pela óbvia razão de que as religiões são lugar em que cabem dogmas, crenças… deixem para os cientistas o trabalho de lidar com ciência.

Ao final da reunião da Comissão de Direitos Humanos, a Senadora Marta retirou o relatório de votação para atender à solicitação dos opositores na discussão de “realizar um debate mais amplo envolvendo a sociedade”.  Após a sessão, enquanto a Senadora dava uma entrevista falando sobre o projeto, Bolsonaro causou um tumulto agitando seus panfletos que associam homossexualidade à pedofilia para as câmeras.

É nesses momentos que podemos perceber claramente quem está realmente querendo trabalhar em prol da democracia e quem está somente tentando nos fazer engolir suas posições. Se o Senador Bolsonaro vai estar no céu por causa de suas ações aqui na terra, eu não faço questão nenhuma de ir para lá!

Filed under: Pensando! | MaxReinert | May 12, 2011 Comments (5)

5 Comments

  1. concordo em gênero, número e grau!

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    Comment by Foxx — May 12, 2011 @ 12:47 pm

  2. De fato Max! Dentro dos assuntos de Fé as opiniões dos “guardiões” dessa fé estão mesmo certas e são aplicadas e seguidas por aqueles que crêem nela, é legítimo. A nota de ontem da CNBB é uma mostra disso. A nota em sim é perfeita dentro da Fé que eles abraçam. No entanto os assuntos de Fé não podem ser confundidos com a vida real quando, nessa vida real, tantos outros grupos também estão inseridos, daí é que precisamos do Respeito e da Compaixão que independe da Fé já que é um atributo da natureza humana.
    A confusão acontece quando algumas pessoas não entendem e nem conseguem separar as pessoas na sua individualidade achando que se um está fora do grupo então está contra ele.
    E isso só se aprende com educação, tempo e algo mais que nem imagino o que possa ser

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    Comment by Evandro Cesar — May 12, 2011 @ 12:55 pm

  3. Bom, eu penso da seguinte forma: qualquer religião tem o direito de concordar e de discordar do que ela quiser; mas nenhuma religião tem o direito de impor a ética dela às pessoas que não fazem parte dela.

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    Comment by Leo Carioca — May 15, 2011 @ 2:24 am

  4. Sempre pensei dessa forma. Achava que a religião tinha todo o direito a sua liberdade de “condenar” a homossexualidade, negar o casamento aos homoafetivos e etc. Afinal, se nós não queríamos que eles (religiosos) se metessem em nossa vida; por que, numa ação contrária, iriamos tentar impor nossa vontade?!
    Bem, como disse acima, era assim que pensava. Até o dia em que, numa conversa com amigos, certas questões foram levantadas… Atualmente para a Igreja, por exemplo, os negros tem alma – não são mais considerados animais como outrora já foram. O que se conclui disso é que a Igreja já modificou muitos dos seus paradigmas, por que não esperarmos que esse mude também? Ou melhor, por que não desejarmos que ele mude? Como fazer isso sem que haja uma “crise” é que seria a questão.
    O que quero dizer, sem mais delongas, é que acredito no respeito à liberdade de crença, mas questiono a manutenção de certos dogmas e posições da Igreja. Afinal, se esta se modificasse, não seria a primeira vez na história, muito menos a última!

    ps: espero não ter sido “confusa”, é que já são 5:10am.

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    Comment by — May 19, 2011 @ 5:08 am

  5. Achei esse post por acaso no Google e acabei de ler.

    Eu sinceramente fico muito, mas muito feliz mesmo por encontrar alguém que entenda a minha opinião como cristã: que todas as pessoas devem ser respeitadas, independente de qualquer coisa, mas que eu não tenho que concordar com tudo que elas fazem.

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    Comment by Ana Carolina — May 24, 2011 @ 1:07 pm

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