Já há algum tempo venho pensando sobre algumas questões relativas à visibilidade gay. Antes de mais nada, gostaria de dizer que sempre fui daquelas pessoas que respeita as decisões pessoais de cada um. Cada pessoa deve saber a hora (ou as razões) que a levam a concretizar seu “outting”. Cada pessoa deve saber os porquês de participar ou não participar de ações que promovam a igualdade de direitos entre gays e heteros. Ser um “ativista”, estar “fora do armário” e até mesmo “manifestar-se contra a homossexualidade” são escolhas pessoais e, obviamente, devem ser respeitadas.
Mas, de um tempo para cá, tenho tentado, pelo menos, estimular as pessoas a minha volta a “assumirem-se” como são e não “interpretarem um papel” heteronormativo no seu dia a dia. Por que? Porque fico pensando que devemos, de alguma forma, prestar tributos àqueles que vieram antes de nós… ou, porque não dizer, aos mártires da causa homossexual.
Explico. Vendo o documentário do post anterior (se você ainda não viu, recomendo muito!) eu fiquei pensando na quantidade de pessoas que passaram por poucas e boas e até mesmo perderam suas vidas por uma única razão: serem gays. Não somente ser gay “dentro de suas quatro paredes”, mas sim ter a coragem de sair à rua e viver como elas realmente são.
Quando vivemos onde vivemos, numa sociedade que é “quase” tolerante ou aparentemente tolerante, esquecemos que algumas pessoas (que normalmente chamamos de “ativistas chatos”) batalharam muitissimo para termos a qualidade de vida que temos. Quando assisto a um filme como Milk, me dou conta de que as coisas não “foram sempre assim”.
Ao mesmo tempo, acho uma posição hipócrita desfrutarmos da liberdade que foi conquistada por essas pessoas e nos escondermos dentro de uma pretensa segurança oferecida àqueles que se mantém dentro dos limites da “aparência heterossexual”.
Há algum tempo, conversando com um amigo “discreto”, ouvi a famosa frase de que “eu não vou sair desmunhecando só para as pessoas saberem que eu sou gay”. Outra frase bastante fácil de se ouvir é “Eu nunca fui agredido nem discriminado”. “Ser gay é apenas uma parte da minha personalidade, não me define como pessoa”. E por aí vai…
Realmente, ninguém tem a “obrigatoriedade” de aparentar gay (até porque não existe um gay padrão!). Meu discurso sempre foi de aceitarmos as pessoas como elas são. Sempre é possível perguntar se essa pessoa que “não aparenta ser gay” age desta forma somente para responder à padrões estabelecidos por outros… mas esta pergunta também é válida para os “que dão pinta”. Mas, no caso dos “discretos”, não seria interessante eles serem abertos em relação à sua sexualidade? Afinal, nada melhor para destruir preconceitos do que mostrar que as coisas não são exatamente como se mostra/fala por aí, não é mesmo?
Tenho muito respeito por gays aparentemente machões que respondem na lata ou agem em determinadas situações deixando claro sua orientação sexual. Ou seja, sua aparência ou forma de agir é algo natural e não impressa por fatores externos. Acredite, muitos deles também são agredidos/provocados por essa postura, seja pelos preconceituosos heteros e muitas vezes por gays também.
Eu nunca fui agredido (fisicamente) por ser homossexual. Passei por uma ou duas situações em que algumas pessoas tentaram me intimidar por eu ser quem eu sou. Mas isso não quer dizer que eu não possa compreender o sofrimento de uma pessoa ou me por na posição dela. Eu não preciso quebrar meu nariz para saber que aquilo deve doer… muito. Eu não preciso ser humilhado na frente de muitas pessoas para saber que isso deve doer… muito! Se você não consegue compreender isto, pode parar de ler o texto por aqui… não tenho interesse em conversar com você!
É óbvio que “ser gay” não é algo que me ocupe 100% do tempo. Quando estou trabalhando eu não fico pensando “como um gay faria isso?”. Eu vivo, de acordo com minhas crenças e necessidades. Dessa forma, algumas das minhas opções são sim derivadas do fato de eu ser gay… mesmo que eu não pense sobre isso quando estou tomando estas decisões.
Assim como também é óbvio que, no momento em que eu vejo alguém sendo agredido por ser um artista que faz um determinado tipo de trabalho e não outro, eu tenho o impulso de defendê-lo. Ser artista é uma parte da minha personalidade. Ser gay é uma parte da minha personalidade. Se eu defendo causas ligadas às artes, por que eu não o faria por causa da sexualidade?
Todos os dias são mortos no Brasil homens e mulheres única e exclusivamente por sua orientação sexual. Todos os dias pessoas são expostas e humilhadas única e exclusivamente por sua orientação sexual. O Dep. Federal Jean Wyllys (PSOL) foi ameaçado de morte por travar batalha no Congresso Nacional pela aprovação da lei que criminaliza a homofobia. Todos os dias vemos (e a internet é um berço dessas aberrações) pessoas que promovem diversas formas de agressão aos homossexuais. “Mate um Gay por dia e seja feliz”, “Estupro corretivo de Lésbicas”. WTF?
Até quando deixaremos que essas pessoas nos coloquem intencionalmente em perigo?
Pois bem, eu cansei! Está na hora de gritarmos #EuSouGay! Está na hora de pensarmos em ações afirmativas para que ninguém se sinta sozinho o suficiente para duvidar de suas decisões. Está na hora de sairmos dos armários, seja declarando nossas orientações, seja se engajando em algum ação concreta para garantirmos nossos direitos.
Lembre-se: Quem não faz nada para ajudar, atrapalha…. mesmo que seja somente pela inércia que propõe. Stand Up!





