
O universo trans sempre me instigou. Assim como me interessam filmes gays e, mais especialmente, nudez e sexo no cinema, sempre me interessei pelos transformistas que assistia na TV e por aqueles seres marginais que circulam pela noite, anônimos e solitários. Pessoas que transformam seu corpo ou sua aparência, indivíduos aprisionados em um corpo que não aceitam, outros que se libertam sendo o que não são…
Claro que este é outro tema pra lá de complexo. Sabemos que pra falar com alta propriedade, seria preciso ter uma interlocução com psiquiatras e psicanalistas, médicos e especialistas em transgênero. Assim como falei no post anterior (que você pode ler aqui), tudo o que diz respeito à sexualidade me interessa.
Pra ser bem franco, nunca tive grande convivência com um (a) transexual… E não é por preconceito, mas por falta de oportunidade. Na verdade, cresci em um bairro onde vivia uma, acho que seu nome era Solange. Ela era cabeleireira e minha mãe cortava os cabelos com ela todos os meses; eu, inclusive, cortei várias vezes meus cabelos com ela. Mas não posso dizer que havia uma relação de amizade porque, além de muito reservada (ela era muito respeitada no bairro), Solange mantinha uma certa restrição em relação as pessoas. Até hoje lembro que ela ia tomar sol na praia com os cabelos presos em um coque bem no alto da cabeça… Na época, estranhava aquela moda e achava que era pela sua profissão afinal, uma boa cabeleireira tem que lançar tendências, não é? Embora a moda de Solange nunca tenha pego… Só depois de adulto é que entendi que aquele famigerado coque era pra disfarçar sua iminente calvície.
Bem, na época de faculdade me deparei com uma figura exótica que circulava pelos corredores ostentando inacreditáveis modelitos, com um senso de moda feminina impressionante. Mas parece que o santo dela não gostou do meu pois nunca consegui uma aproximação de fato. E é curioso isso porque eu sempre quis ser amigo dela! Enfim… hoje ela assume seu gênero feminino com completa aceitação de família e amigos, é uma bem sucedida (e polêmica) profissional performática, embora (pelo que sei) não tenha feito a transgenitalização.
Mas alguém que tive o privilégio de conhecer e, de fato, estabelecer uma relação mais próxima, é a Maite Schneider. Sei que ela ainda é pouco conhecida, embora seja figurinha tarimbada em diversos meios. Militante, atriz e depiladora, Maite foi quem primeiro teve o direito à mudança de nome e gênero em documentos na Jurisdição brasileira (que já foi assunto de um post do Max Reinert que você pode conferir aqui). Claro que pra isso teve de se adaptar a algumas necessidades legais como, cúmulo do absurdo, ter que estabelecer residência em Porto Alegre pois o RS era o único estado brasileiro aberto a tais moções. Esta é, de fato, uma importante conquista para a comunidade LGBT por se tratar de um aspecto vital na inclusão societária. Imagina você se reconhecer como Maite e seus documentos dizerem que você se chama “Alexandre”?
Então achei que é pertinente em épocas de BBB e São Paulo Fashion Week onde as pessoas e a mídia soam mais dispostas a tratar de assuntos relacionados a sexualidade – talvez abarcados pela participação da primeira transexual do programa ou pelo desfile da top-trans Lea T na semana da moda – reforçar esse coro falando sobre algo que tem me encantado desde meados do ano passado: tempos atrás, enquanto pesquisava um pouco sobre transexuais, me deparei com algumas notícias e imagens que me impressionaram: descobri os trans-homens!
Sei que você, leitor (a), já sabe de algumas histórias amplamente divulgadas recentemente como a de Chaz Bono (filho da cantora Cher) e de Thomas Beatie, o primeiro homem “grávido” (que já teve um segundo filho, inclusive!). Mas já experimentou procurar um pouco mais a respeito? Foi com essa curiosidade que fui pesquisar e encontrei algumas destas informações.
Fiquei pasmado quando vi as imagens e (de novo) não foi por preconceito, foi estupefação mesmo diante daquilo que eu sabia que existia mas nunca tinha visto! Realmente uma coisa muito louca. Porque pra gente é comum imaginar um homem que transforma seu corpo para se adequar à sua sexualidade, não? A gente imagina direto uma lipoaspiração, implante de seios, prótese nos bumbuns, depilações, megahair e decotes abissais. Mas o que vi são músculos, pelos, cavanhaques e, pasmem!, homens interessantíssimos e sexies!
Se você tiver curiosidade, pode ver algumas das imagens de que falo aqui e aqui. Não é estranho pensar num homem musculoso e absolutamente desejável com uma vagina no meio das pernas?!? Os mais conservadores poderão não acreditar no que veem e os fundamentalistas certamente dirão se tratar de coisa do demo. Em seguida, encontrei um site de relacionamento onde se documenta os trans-homens. Muitos – mas muitos mesmo – são profissionais bem sucedidos e respeitados, em sua maioria doutores em sexualidade, cientistas, pesquisadores em geral. Quase todos militantes. Legal, não?
Mas daí tem um dado curioso: embora Loren Cameron seja um conceituado fotógrafo, Buck Angel é… ator pornô! Não posso deixar de pensar que isso é um clichê. Mas tem espaço pra críticas? Suponho que não…
Já percebeu o quão comum é estranharmos uma lésbica, daquelas que pejorativamente chamam de trucker? Por mais que façamos parecer natural, ainda nos soa estranho ver uma lésbica vestindo calça larga, camisa de botão e chuteiras, com aquele cabelinho curto trabalhado no gel fixador e, ainda por cima, andando como se tivesse bolas! Bem, eu conheço várias assim. Algumas exatamente assim! Outras, ainda tentando se socializar (tentando um fingido enquadramento feminino-normativo, embora loucas por tosar as madeixas). Lembro da ex-namorada de uma grande amiga minha que, de tão masculinizada, era confundida naturalmente com um homem; as pessoas se chocam quando ela diz ser mulher embora ela, com toda naturalidade, ache comum tão confusão. Uma vez perguntei se ela se sentia presa num corpo feminino, se tinha vontade de “ter um pinto” ou se já pensou em ser homem. Divertida, ela respondeu que tudo estava bom do jeito que estava. Mas não pude deixar de pensar que ela fosse um tipo de trans-homem; acho que foi a primeira vez que cogitei que essa possibilidade existe!
Percebe o quanto a simples descrição de um estranhamento vem carregada de preconceito internalizado?
Então pensemos: em que ambiente profissional um trans-homem seria bem acolhido? Qual é a profissão mais “natural” pra essas pessoas? Nossa, não tem mesmo como escapar dos clichês! A gente sabe que o sexo é um negócio rentável, basta olhar para a indústria pornô e perceber quantos títulos com travestis se encontram disponíveis. Se não são profissionais do sexo, certamente são cabeleireiras ou… depiladoras! Buck Angel é um ator altamente gabaritado e requisitado. Imagina o fetiche?
Mas, pelo seu pioneirismo – ser o primeiro trans homem a mostrar o rosto, ao invés de apenas sua genitália – Buck Angel é uma pessoa ímpar e tem uma firmeza que muitas vezes nos falta ao assumir nossa postura. Ser homem e ser mulher é pura categorização! Não dá mais para pensarmos “isso é feminino” e “isso é masculino”. Não é um órgão sexual, muito menos a aparência que determinam nosso gênero, nossa sexualidade.
O fato mais que concreto aqui apresentado é que por mais que tentemos descrever tais “seres contemporâneo-mitológicos” ou falar das “categorias” reinantes no universo LGBT sempre estaremos envolvidos – mesmo que por uma membrana – de preconceito. Não tem como não fazer uma menção [honrosa] àquela figura do momento que abarcou as atenções nas últimas semanas pela sua participação no BBB. Em minha opinião, e pelo meu olhar para as coisas, posso afirmar que Ariadna não revelou de cara sua transexualidade devido a uma carga muito grande de preconceito que traz pela sua própria condição. Imagine: ex-profissional do sexo, cabeleireira e trans… Por menos que seu físico e seu comportamento denunciem, seu corpo e sua razão estarão sempre marcados pelas cicatrizes históricas de uma civilização preconceituosa.