Uma das coisas que eu mais gosto no twitter é a possibilidade de entabular discussões rápidas acerca de assuntos inusitados. Dia desses,começamos uma conversa a partir de um link enviado pela @SrtaBia de um texto que falava sobre “cavalheirismo” e estava escrito por uma mulher dentro de uma visão tão machista, que dava vergonha alheia.

Das relações machistas descritas no texto para o machismo dentro das relações homossexuais, foi um salto que não sei direito como explicar, mas a verdade é que em pouco tempo estávamos eu, a já citada (rs) e mais @AndreV e @NotOnProzac batendo um papo online sobre várias questões… até chegarmos ao absurdo mais aceito como óbvio dentro do “mundinho” homossexual:
Os homossexuais passivos e/ou “afeminados” dentro da comunidade gay, são cidadãos de segunda classe.

Se você é homossexual, as coisas que eu vou comentar aqui são extremamente deja vú. Não é de hoje que TODO MUNDO SABE que aos homossexuais passivos (os que são penetrados durante a relação sexual) é destinado um olhar pejorativo dentro do universo gay.

As “pintosas”, as bichas efeminadas, as “passivonas” são rótulos colocados à priori sobre uma parcela da população homossexual que contribuem para a construção de um “apartheid” gay. Lugar de “barbie” é com as outras “barbies”. Lugar de “bee” é com as outras “bees”. Lugar de “gay macho” é com a população heterossexual.

Dessa forma, vemos um sistema criado que “classifica” as pessoas de acordo com o seu grau de “feminilidade”. Quanto mais “masculina” é a aparência do gay, mais “valor de mercado” ele obtem. Logo, por mais absurda que essa relação possa parecer, os passivos são colocados como figuras submissas e “mais femininos”. Ou seja, parâmetros distorcidos em uma percepção “social”.

De absurdos do tamanho do “não necessariamente um cara que come outro cara é gay” ao “só me relaciono com caras discretos“, o que podemos perceber é a reprodução de padrões machistas dentro de um “gueto” que teoricamente não deveria se encaixar dentro dessas mesmas definições. (Estou falando das minhas experiências em relação a homossexualidade masculina, mas ouso dizer que elas se reproduzem também de alguma forma entre as lésbicas.)

Oras, uma coisa que sempre me deixa assustado é uma classe que têm de lutar para poder manter sua dignidade dentro de um mundo que é ainda extremamente homofóbico, tão facilmente ou rapidamente usar os mesmo mecanismos de dominação dentro de uma perspectiva mais íntima. Ou será que, exatamente por serem encorajados a reafirmar a sua masculinidade para não se tornarem o “viadinho” da turma, os homossexuais se tornam vítimas da introjeção de certos estereótipos machistas?

Atenção que, estou me referindo ao “parecer” e não ao “ser”. Porque, com esse sistema de castas que impera no universo gay, o mais comum é encontrarmos indivíduos que se esforçam para “aparentar” uma condição masculina que nem sempre condiz com a sua personalidade.

Não é difícil encontrar por aí o que (também pejorativamente – sim, é quase uma vingança) chamo de “bicha panqueca”: São aqueles gays que juuuuuuuuuuuram de pé juntinho que são ativos, mas durante a relação sexual são os primeiros a “virar” de lado e exercerem a “função” de passivo… algumas vezes, reproduzindo um comportamento estereotipado que, na realidade, nada tem de feminino ou até mesmo de excitante.

Por mais clichê que possa parecer, a aceitação de minha homossexualidade, foi/é um processo que tem a ver com a aceitação de “quem eu sou”. Este “quem eu sou” passou (e passa) por diversas etapas que vão desde a aceitação do desejo afetivo por outros homens até a descoberta de uma “maneira de ser” que não necessariamente precisa se espelhar nos arquétipos que me foram oferecidos pelos meus pais e pela sociedade.

A partir do momento em que me descobri gay e aceitei esta condição, ao contrário do que a maioria costuma dizer, senti muita liberdade em ser o que eu quisesse. Na falta do que eu chamo de “imagens positivas” para a comunidade (afinal, na minha época, ser gay ainda era mais ligado ao submundo) e na negação do estereótipo do “transgênero” (nunca tive vontade de me transformar em mulher), não me sobrou muita opção por uma “forma” específica para a expressão da minha sexualidade.

Ao mesmo tempo, sempre acreditei que a minha sexualidade é apenas uma porção da minha “persona”, assim que não deveria dar tanta importância que ela se “expressasse” tão notadamente no meu dia-a-dia. Parece ter funcionado. Nunca tive muitos problemas por causa do meu jeito de ser. Se por um lado, raramente sou agredido/abordado por ter um comportamento “gay demais”, por outro, nunca me perguntam se eu sou gay ou não, visto que isso se revela em mim.

Não estou, de forma nenhuma, tentando ditar e/ou delimitar como deve ser o comportamento homossexual. Acho que cada um deve achar sua forma e escolher sua maneira de expressar sua sexualidade. O que me incomoda um pouco é a necessidade que alguns têm de “reproduzir um padrão” específico, na maioria das vezes apoiado em uma perspectiva heteronormativa, onde os homens agem de uma certa maneira e as mulheres de outra.

Tal “necessidade” se percebe em vários aspectos. Desde o comportamento que eu descrevi acima, uma tentativa de se encaixar em padrões de masculino e feminino, até a reprodução do padrão “marido/mulher dos anos 50″ no caso de uma relação de parceria. E, como nos casamentos dos anos 50, toda a relação machista que sustentava aquele tipo de união reaparece de forma absurdamente anacrônica.

Dessa forma, negando um pouco o que falei lá no início do texto, não é somente no universo gay que essas relações machistas aparecem. Na verdade, elas aparecem em todas as relações que ainda insistem em reproduzir a discriminação com o feminino. Nossa herança quase genética em separar homens e mulheres com indivíduos com “valores” diferentes perante a sociedade.

É o mesmo tipo de pensamento que ainda culpa a mulher quando ela é estuprada. O mesmo tipo de pensamento que não vê nada demais no “Rodeio das Gordas” (vejam alguns comentários e desesperem-se!). O mesmo tipo de pensamento que justifica assassinatos como o do caso do Goleiro Bruno. O mesmo tipo de pensamento, que afirma com todas as letras, que “viadinho é quem dá”, “quem come é que é macho”!  E não entende que, sem os opostos (quando eles existem) não há atração possível.

Filed under: Pensando! | MaxReinert | October 28, 2010 Comments (10)

10 Comments

  1. Acredito que a “bicha panqueca” é um efeito do “ser macho” perante a sociedade e vender a imagem heteronormativa que somos incentivados a construir desde nossa mais tenra infância, quando largamos as fraldas e nossos pais insistem que devemos mijar em pé!

    Ser ativo ou passivo é apenas mais um dos processos de construção dessa sujeito ainda em transformação, de sua identidade homossexual e conheço muito gay que ainda reluta em assumir a condição passiva. Eu próprio demorei pra aceitar e experimentar e, ok, eu gosto também! Mas é uma coisa assim, digamos, como a feira: prefiro pera à maça, o brócolis ao quiabo… Eis a dificuldade em discutir um tema como esse dado que, sim, existe também uma cultura de mercado como você bem colocou no texto.

    A questão está bem colocada, mas acho que é preciso aprofundar sobre “ser passivo” e “ser afeminado”. Sabemos que são coisas que, embora também se manifestem juntas, são coisas absolutamente diferentes. No fundo, no fundo, não passa de um outro tipo de armário.

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    Comment by Cristóvão — October 28, 2010 @ 5:15 pm

  2. Então Max, eu realmente amei o texto, é até poético de tanto que fala a alma.

    Na essência o problema é o preconceito de todo tipo, pessoas muitas vezes frustradas por não assumirem quem são por conta do medo do que o outro vai pensar e que perdem tempo perseguindo quem não tem esse medo.

    Parabéns de novo!

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    Comment by Simone Miletic — October 28, 2010 @ 8:14 pm

  3. O twitter me trouxe aqui pelo tema do seu texto.

    Como é curioso o ser humano, eu gostaria de entender mais da cabeça das pessoas, e da minha própria.

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    Comment by Rafiki — October 28, 2010 @ 11:25 pm

  4. Ótimo texto, infelizmente todo o pré conceito é real (quando os gays deveriam estar unidos estão falando mal um do outro, seja por ser feminino, por ser passivo, etc, etc e etc…).
    Deveria – e poderia – ser tão mais simples se as pessoas aprendessem a conhecer e valorizar o outro como ele é.
    Sua frase final resume tudo: sem os opostos não há atração possível. Quem os “machões” iriam comer se não fosse os passivos. Né?

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    Comment by Daniel Henrique — October 29, 2010 @ 11:33 am

  5. Começo dizendo que gostei muito do texto.

    A linha do texto vai mais ou menos pelo o que eu penso e tenho estudado também.
    Infelizmente o mundo homossexual, para nao entrar na discuçao de todas as caixinhas (LGBTTT), com suas particularidades, segue uma construçao dada pela heteronormatividade, por mais que nao seja heterossexual.
    Isso é pensar que uma pessoa que nao é heterosexual pode nao quebrar nenhuma “regra” heterossexual pelo simples fato de se relacionar com uma pessoa do mesmo sexo. Ela pode continuar reproduzindo os mesmos “ditos”. É pensar no que a Judith Butler chama de abjeto, que seria, em poucas palavras, o objeto que nega a normal, um objeto revolucionário. Por exemplo: um travesti nao é revolucionario só por ser travesti, muito pelo contrário, ele pode reproduzir os mesmos presupostos do modelo heterossexual que se embasa na construçao da masculidade e da feminilidade, sempre em oposiçao e determinando as identidades, nao só de gênero, como sociais (influindo no trabalho, gostos…etc…)

    Isso é dizer que se pararmos para pensar muito tem que ser feito para que chegemos a um ponto onde as pessoas, independentemente de ser homem, mulher, homossexual, transgenero, heterossexual, bissexual……. tenham a liberdade de amar quem queiram, se relacionar com quem queiram, ou simplesmente, fazer as coisas que queiram sem ter que estar preocupados com o identificarse com o feminino ou o masculino e em tudo que isso influi (as próprias relaçoes sociais e afetivas).

    Por mais que seja um poco utópico é pensar em uma sociedade que nao imponha as identidades, pelo contrário, que seja plural com várias formas de se viver, em que todas sejam respeitadas de fato.

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    Comment by Sergio Luis — October 29, 2010 @ 2:16 pm

  6. [...] post do Mauricidades pra cá.  O @MaxReinert deu tratos a bola  e transformou nesse nesse belo post uma conversa muito bacana entre mim, ele @srtabia e @NotOnProzac Essas conversas só me fazem [...]

    Pingback by Sô passiva meu amô !!! « Lágrimas de Crocodilo — October 31, 2010 @ 4:45 am

  7. [...] entre “viado” e “gay” feita no texto. Porque na real, como disse o Max, a gente não tem o direito de esculhambar uma pessoa só porque ela é over. Este pode até ser um componente irritante (eu não gosto, pra ser sincera, advenha ele de gays ou [...]

    Pingback by O Perrone tá tão errado assim? | From Lady Rasta — April 14, 2011 @ 9:23 pm

  8. Não existe ser passivo ou ativo! Ativo é comedor! Ser gay é sempre ser passivo, é sentir atração por pessoas do mesmo sexo! Essa é a nossa cultura! Não sei dizer se é felizmente ou infelizmente.

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    MaxReinert Reply:

    Acho que vc não sabe do que está falando…

    [Reply]

    Comment by Edson — January 28, 2013 @ 10:36 am

  9. Nem de propósito venho a dar a este blog… Sou homossexual, e apesar de não andar com um placard na testa a dizer que o sou, não vou esconder seja de quem for se alguém me perguntar.
    Sempre me considerei ativo nas minhas relações, mas coma última pessoa que estive tive vontade de ser passivo. Tanto é que assim o foi, mas que apesar de me sentir atraído sei que o meu inconsciente regista ainda algumas barreiras, como a história do viadinho que é aquele que leva, entre outras coisas. Sinto que isto afeta as minhas relações, inclusive apesar de ter vontade de querer ser passivo, não sinto qualquer prazer.

    Gostava que se alguém passa ou passou por algum caso semelhante ao meu para deixar mensagem, a relatar a experiência. Para mim seria interessante, pois isto é algo que me deixa apreensivo.

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    Comment by Xmen — September 12, 2013 @ 10:46 pm

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