Outro dia, li em algum lugar que a grande diferença entre a relação de alguma minorias com a sociedade estaria exatamente no núcleo familiar. Por exemplo: uma pessoa negra, ao chegar em casa vai poder encontrar “seus iguais”, alguém com quem poderá compartir inclusive suas frustrações no caso de algum tipo de discriminação. Já o indivíduo homossexual corre o risco de ser duplamente discriminado. Ao chegar em casa, muitas vezes terá um duplo trabalho ao ter que esconder suas frustrações por ter sido discriminado na sociedade e ao mesmo tempo esconder sua orientação sexual. Enquanto, para alguns, a família é sinônimo de acolhimento, para outros ainda é sinônimo de medo e decepção.

Ao me ouvirem falar assim, dessa forma, sempre corre-se o risco de achar que eu caio no erro da simplificação e generalização. Mas, sei e posso contar de casos que aconteceram a menos de 01 mês e envolvem desde ameaças físicas até retaliações econômicas.

Em minha própria família, há certo silêncio sobre minha orientação. Meus pais faleceram cedo então nunca tivemos “a” conversa. Mas enquanto um dos meus irmãos fala sobre o assunto (quando é necessário!!) o outro nem admite a possibilidade. Há pouco tempo, quando me visitou e ficou hospedado em minha casa, tratou meu namorado como se fosse um “amigo” (hipocrisia mode on). E ao ser questionado por minha cunhada (que está ao par de toda minha vida amorosa – sempre as mulheres, né?), disse não saber do que ela estava falando (hipocrisia mode of).

Mas, engana-se quem crê que o grande problema para os homossexuais seja perder a sua ajuda econômica e/ou ser agredido fisicamente (por mais doloroso que isso possa ser!). Acredito seriamente que um sentimento de ter sido a “decepção” da família seja o que mais pesa para quem é homossexual. E não estou afirmando com isso que esse sentimento seja real. Mas é algo que nos é imposto e reforçado a todo momento principalmente por algumas religiões.

Já estou ouvindo a/ pergunta/comentário que sempre recebo quando falo sobre esse assunto: Mas qual é a família que vai ficar feliz em ter um filho gay? Ele vai ser discriminado… vai ser infeliz… etc, etc, etc! Ou seja, você é uma decepção. Mas, não podemos esquecer que “se decepcionar” tem a ver com “contrariar a projeção de um ideal”. Dessa forma, a resposta para as perguntas acima é mais simples do que pode parecer.

Qual família não se decepciona com um filho gay? Qualquer família que permita que o filho viva a vida que lhe cabe. Qualquer família que não fique projetando no seu filho suas frustrações, sonhos e desejos. Qualquer família que compreenda (ou aprenda a compreender) que a homossexualidade não é uma opção. Qualquer família que deseje que seu filho tenha uma vida plena, sem ter que esconder e/ou negar aspectos de sua personalidade.

E só para finalizar, talvez seja a vez dos gays fazerem uma pergunta para suas famílias: O que define uma família? A simples hereditariedade? Ou a possibilidade de superar diferenças no desejo de construir uma vida feliz em comum?

Filed under: Pensando! | MaxReinert | February 3, 2010 Comments (8)

8 Comments

  1. Amigo Max

    Vivemos o paradoxo da informação que é, ao mesmo tempo, abundante e extremamente rasa, superficial. Presenciamos e, pior, protagonizamos a derrocada da educação, vitimada de forma fulminante pelo revolução dos meios (e da forma) de comunicação. Alimentamos a cultura do lixo nos mais diversos veículos de comunicação, sem resistência dos meios educacionais, via de regra. Nossos adolescentes e jovens, não apenas mas muito por conta disso, são muitas vezes mais preconceituosos do que as gerações que os precedram. Quando vejo isso, olhando pra frente, não vejo um cenário dos melhores não. Em pleno Séc XXI, “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”.

    =(

    [Reply]

    Comment by Wagner Fontoura — February 3, 2010 @ 4:26 pm

  2. Que honra um comentário seu, meu amigo!
    Saudades!

    [Reply]

    Comment by MaxReinert — February 3, 2010 @ 4:52 pm

  3. É… a homossexualidade é uma questão mto complicada, porque por mais que os pais sejam modernos, compreensivos e coisa e tal, eles sempre acabam projetando alguma coisa na vida dos filhos, nem que seja coisa boba. Outro problema, na minha opinião, é que os pais muitas vezes não estão preparados para exercer esse papel, pois acima de tudo, ser pai (ou mãe, né?)é ser compreensivo.

    [Reply]

    Comment by Dafne — February 6, 2010 @ 2:37 am

  4. Sinistro!

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    Comment by Linkadão — February 6, 2010 @ 12:04 pm

  5. [...] Fonte: No Ghetto [...]

    Pingback by Sobre gays e famílias « GOSTEI PRA CARALHO — February 8, 2010 @ 1:35 pm

  6. [...] depois, como eu já perguntei aqui:  O que define uma família? A simples hereditariedade? A presença do masculino e do feminino? Ou [...]

    Pingback by Sobre a adoção por gays…ou a institucionalização do cidadão de segunda classe | No Ghetto — July 14, 2010 @ 11:58 am

  7. Sou hetero, e a mim, é indiferente a orientação sexual de meu futuro suposto filho (o mesmo serviria pra filha). Não irei ter relações sexuais com a parceira dele se ele for hetero. Então, qual me é a diferença? A vida do meu filho será pra ele viver. Espero que, independente da cor e da orientação sexual, ele seja feliz e sofra o mínimo de violência (física, psicológica e/ou simbólica). Só espero que ele não seja religioso, isso seria um problema. Não é um preconceito, mas um pós-conceito: a religião é INVARIAVELMENTE fonte de preconceito discriminação.

    [Reply]

    Comment by Eric — September 16, 2010 @ 12:07 am

  8. [...] que é ainda mais potente do que a exercida pela sociedade em geral. Eu já tinha comentado neste post, que “o indivíduo homossexual corre o risco de ser duplamente discriminado. Ao chegar em [...]

    Pingback by Suicídio gay… e formas mais sutis de homofobia. | No Ghetto — October 1, 2010 @ 11:28 pm

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