
Publicado originalmente no blog NossaVia, em fevereiro de 2008… mas ainda parece ser tão atual…pena!
Estes dias, lendo um dos posts do Nossa Via, deparei-me com um comentário que dizia mais ou menos assim: “Não é necessário usar todo o seu conhecimento para fazer uma crítica sobre uma coisa tão ruim.” E fiquei me perguntando: Será mesmo? Desde quando “conhecimento” virou sinônimo de “pedantismo”?
Eu não sou um dos defensores da academia. Não tenho formação acadêmica na área que atuo e não acho que passar por esta experiência é algo imprescindível na construção do conhecimento. Existem várias formas de adquirir conhecimentos e várias formas de construir um aparato técnico necessário para desempenhar a profissão que cada um escolher. Mas, não estou somente falando da profissão. Estou falando do “conhecimento’ como algo intrínseco ao ser humano na busca por uma evolução pessoal. Estou falando da possibilidade das pessoas poderem usufruir de uma boa leitura, de boa música, de boas conversas… da busca por uma passagem menos mediocre pela terra.
Nos últimos anos, qualquer tentativa de uma conversa que não seja sobre os acontecimentos cotidianos, parece fadada a encontrar olhares de soslaio e fugas rápidas. E nem estou falando que isso acontece só comigo não. Não se preocupem! Não sou o chato que sempre quer ter um “papo cabeça” e que ninguém suporta ter por perto. Acredito piamente que existem momentos que pedem uma boa e velha “conversa jogada fora”. Mas, acredito também no equilíbrio entre as coisas. Se há momentos para “desligar” o cérebro e falar bobagens, também deveria momentos para se discutir “qualquer assunto” um pouquinho mais a fundo.
Se, por um lado, a TV só oferece programas cada vez mais imbecilizantes, há que se pensar que talvez seja isso o que o público busca… incansávelmente! Existem sim programas que são mais interessantes e “tentam” elevar o nível da conversa, mas são esses que acabam ficando sem nenhuma audiência… e conseguentemente, sem patrocinadores. Fazer cultura neste país é algo muito árduo e, em muitos momentos, há que se ter muita força de vontade para não sucumbir ao apelo das massas.
Em minha experiência como produtor cultural, tive a oportunidade de presenciar algumas cenas que ilustram facilmente essas dificuldades. Em cartaz com um espetáculo premiado sobre a obra do poeta Mario Quintana, acabamos por concorrer pelo público com uma produção do tipo “O Ursinho Puff encontra o Lobo Mal para um Aventura Radical”! Sim, elas existem!!! E, nem preciso dizer que esta produção ligeira, sem nenhum pensamento além de arrecadar uma grana na bilheteria, deu de 5 X 0 em nós.
Exemplos como esses estão aos montes espalhados pelo país. E mesmo aqui, na Europa, consigo perceber que não é muito diferente. Mesmo os atores que estão na televisão e tem a possibilidade de contar com uma mídia de divulgação muito maior, têm dificuldade em manter um repertório que seja mais erudito. Se olharmos para o passado recente, veremos muitas montagens de espetáculos teatrais de outros gêneros que não a comédia. E mesmo dentro da comédia, existe muita diferença em trabalhar com um material mais consistente do que os “quadros cômicos” tão em moda ultimamente.
O quadro é grave! Algo precisa ser feito. A educação é um processo que se transmite, muitas vezes, com perdas. Se cada vez mais deixarmos o nível das discussões ir diminuindo, logo estaremos falando sobre técnicas maravilhosas para se lavar um carro, utilizando-se de um trapo e uma mangueira. Que interessante!