caio fExistem vários motivos para uma pessoa escolher ler um livro. Alguns livros são escolhidos pelo autor, outros pela temática. Alguns porque são “clássicos” e só por esse motivo já entrariam em uma lista de “obrigatórios”. Outros ainda porque está todo mundo falando e você acaba se sentindo “atrasado” se não der pelo menos uma folheada.

Quando a editora Record, através da Bites, com a curadoria da SaMta propôs a realização de um Book crossing e apresentou aos blogueiros da rede MdeMulher uma lista com alguns títulos interessantes, meus olhos logo brilharam sobre “Para sempre teu, Caio F.” por diversos motivos. O principal deles é a ligação dele com o Teatro (minha profissão “oficial”) e sua orientação sexual (o que lhe linkaria diretamente com este blog, embora ele não goste de ter seu trabalho rotulado pela sua sexualidade). Também entrou na conta meu “complexo de culpa” para com a obra de Caio fernando Abreu. Desde que me conheço por gente de teatro já devo ter visto umas várias montagens do texto “A Maldição do Vale Negro” (comédia melodramática interessantíssima, que eu já li e reli milhões de vezes) e tenho como um dos livros de cabeceira o “Inventário do Ir-remediável“. Meu blog pessoal não se chama Pequeno Inventário de Impropriedades à toa.

caio-fernando-abreu-3E, só! Nem uma linha a mais. Nem uma linha a menos. Minto, talvez um conto ou outro na web, ou ainda citações aqui e acolá. Mas isso não é porque não admirava a obra do Caio. Ao contrário, talvez fosse até um medo de encontrar coisas muito pessoais e assustadoras em seus textos. Assim, Caio passou a ser para mim, aqueles autores que sabemos que amamos, mesmo sem saber muito bem porque! Imperdoável, eu sei. Mas são as fraquezas humanas, apenas uma das que eu carrego comigo.

Ao ler o livro de Paula Dip, várias de minhas suspeitas sobre Caio se confirmaram. (Percebam a intimidade com que já falo sobre ele!) Por trás daqueles textos amargos e doloridos, escondia-se um homem que amava a vida, à sua maneira. Por trás da profundidade de seus contos, havia um homem que sabia fazer as brincadeiras mais fúteis e que gostava de rir, às vezes. Entre esses contrastes entre autor e obra, me identifiquei com Caio. Aproveitei com ele (e conduzido pelas mãos de Paula) de todo o desbunde dos anos 70 (eu estava acabando de nascer e só pude viver/compreender este época agora), das implicações políticas que era viver nos 80 (eu era uma criança, não via nada!) e da melancolia das perdas dos anos 90 (já um jovem adulto eu descobri o sexo numa época difícil em que o medo da “infecção” empurrava as experiências sexuais para dentro de uma neurose sem fim).

caioecazuzaE talvez esse seja o grande mérito do livro de Paula Dip. Ela nos torna íntimos de Caio, ao mesmo tempo em que nos dá um painel histórico de um período sob o viés daqueles que “viveram” intensamente aquela época. E nós, vamos junto… voyeurs! Ansiando viver junto com eles, aquelas experiências que não são nossas, mas mesmo assim sentimos imensas saudades. Nostalgia mitológica, obviamente! Talvez se tivéssemos realmente vivido naquela época consideraríamos tudo muito “normal”. Mas a distância histórica nos dá a dimensão das revoluções que ocorreram naquele momento. (Provávelmente alguém sentirá o mesmo daqui há vinte anos quando narrarmos como a comunicação via web transformou nossas vidas.)

Assim, somos seduzidos pela “persona” de Caio Fernando Abreu. Vibramos por reconhecer certas expressões criadas e/ou difundidas por ele. Quantas “saias-justas” já passamos na vida? Quantas “lasanhas” já desejamos provar em nossas noitadas por aí? Nos deliciamos com os “muuuuuito” e “claaaaaaaaro” que nos dão a exata medida das pessoas ampliando uma idéia via comunicação escrita. (Aliás, prática muuuuuuito difundida em tempos de comunicação online!) E mesmo seus estrangeirismos, hoje em dia já tão fora de moda, são deliciosos.

1169097360_caiofernandoEssa dimensão humana do “escritor marginal” é a grande contribuição do livro. Suas cartas enviadas para a amiga Paula Dip, principalmente as dos capítulos finais do livro, são, por que não dizer, emocionantes. A maneira como ele dá uma dimensão poética aos fatos mais banais e cotidianos nos demonstra que Caio era exatamente o que escrevia. Zen Budismo? Homem/Obra? Meta-ficção? Re-ler suas obras após a leitura do livro é uma experiência interessantíssima. (Fiz isso com Morangos Mofados através do GoogleLivros. Li antes e depois de “Pra sempre teu…”)

O único porem do livro, são certas reiterações que a autora parece fazer a todo o tempo. Em alguns momentos a estrutura do livro se mostra um pouco repetitiva, contando a mesma história várias vezes em momentos distintos. Nada que atrapalhe em muito a leitura, mas alguns cortes poderiam ser feitos sem diminuir em nada as qualidades e/ou a narrativa.

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De qualquer forma, é uma leitura super interessante. Diverte, emociona e dá uma nostalgia imensa! O exemplar que eu recebi já tem um destino certo: uma lista de amigos que se inscreveram durante a minha leitura.  De mão em mão, a escrita de Caio Fernando Abreu vai sendo divulgada. Amém!

UPDATE: Veja o que o Pablo Biglia do Universo Mix achou desse mesmo livro, clicando aqui!

Filed under: Indicando!,Revivendo! | MaxReinert | August 30, 2009 Comments (6)

6 Comments

  1. Max, meu querido
    que texto MARAVILHOSO. Pessoal sem ser vazio e repetitivo, instrutivo e histórico sem ser chato e cansativo, passional sem perder a objetividade, crítico sem ser maldoso. Sou sua fã incondicional.
    :)

    [Reply]

    Comment by Sam Shiraishi — August 31, 2009 @ 3:19 am

  2. Atiçou a minha curiosidade. rs
    Quero ler!

    Bjk

    :)

    [Reply]

    Comment by nubia — August 31, 2009 @ 3:46 am

  3. Gostei muito do seu texto e estou aquele gostinho de quero mais, sabe?
    Preciso ler esse livro :D

    [Reply]

    Comment by Ju Vilela — August 31, 2009 @ 5:53 am

  4. Olá Max

    Belissimo post!

    Que sensibilidade a sua heim!!!
    Adorei!!
    Este será minha próxima leitura.
    Parabéns e
    beijinhos

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    Comment by cybelemeyer — August 31, 2009 @ 3:34 pm

  5. Não lembro exatamente quando o primeiro livro do Caio me caiu nas mãos. Acho que foi no finzinho da adolescência. Já tinha ouvido falar dele e encontrei O Ovo Apunhalado na versão pocket. Dali para frente minha vida literária foi Caio, mergulhei de cabeça, sempre comprando todos os livros que apareciam, especialmente em sebos.
    Caio é muito do que você disse, é amargurado, mas também gosta muito de sorrir. Gosta de incitar as pessoas a amarem mesmo com o medo espreitando tudo. Bom ver que a Paula Dipp conseguiu fazer uma bela homenagem ao amigo.

    [Reply]

    Comment by Srta. Bia — September 2, 2009 @ 8:34 am

  6. […] eu escrevi a resenha do livro Para Sempre Teu, Caio F, comecei falando da importância da identificação do leitor com o livro. Acredito piamente que […]

    Pingback by Um livro, Uma causa: Ajudar pessoas! | No Ghetto — September 18, 2009 @ 7:07 am

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