Tudo começou com a indicação de leitura no twitter do @gustavomiranda: um artigo de Leandro Colling intitulado “Opus Dei ataca homossexuais e os jornais dizem amém“. Nele, o autor comentava e contestava um outro texto do jornalista e professor Carlos Alberto Di Franco que ataca as políticas públicas para o combate à homofobia no Brasil. (O texto está na íntegra no mesmo link acima). Até aí tudo ia indo bem. Leandro deixava bastante claro o quão estranha é a relação da mídia com os homossexuais no Brasil, sempre dando voz para os “arautos dos bons costumes” e demonizando os “pervertidos e imorais”. Nessa mesma linha ele também mostrava claramente o quão homofóbica é a postura do referido jornalista.
Vai daí que, neste tipo de discussão, sempre existe um certo movimento nos comentários. Sempre aparecem pessoas que auxiliam a ampliar a discussão e, obviamente, outras que na falta de argumentos escrevem bobagens sem a menor base sólida. E é nesse momento que entra a declaração que dá título a este post:
escrito por Izaias Lima , Brasilia-DF – Analista de Sistemas
Enviado em 23/6/2009 às 3:13:16 PMPara as pessoas que não sabem o que é um modelo de família normal — o(a) sr(a) Suâmi Dias parece que não sabe — vou esclarecer: é aquele da qual você foi gerado, um macho e uma fêmea e os filhos resultantes dessa união.
Antes de tudo, deixe-me deixar algumas coisas claras: Eu não acredito que alguém “se torna” gay. Acredito e passei por essa experiência de que a homossexualidade é/foi algo que nasceu comigo. Desde que me entendo por gente tenho desejo e afetividade sempre relacionada com o sexo masculino. Estou esclarecendo isso porque as declarações que vou fazer a seguir podem acender luzinhas nas cabeças dos pseudo-psicologos-freudianos-caralho-a-quatro que queiram me enquadrar como gay por não ter tido uma boa relação com meu pai.
O caso é que, eu sou filho de uma família como essa descrita aí em cima: um macho e uma fêmea que me geraram. E segundo o Sr. Izaias, uma família normal. Será? Será que é normal ter um pai alcoólatra, ausente e por vezes agressivo? Será que essa figura paterna contribuiu de alguma forma para o desenvolvimento “normal” da criança que eu era? O que há de normal em uma criança que tem vergonha de trazer seus amigos da escola em casa porque nunca sabia em qual estado iria encontrar o patriarca da família? O que há de normal em ver seu pai dormindo em casa enquanto sua mãe é que se esfalfava para conseguir o sustento da família?
Não, Sr. Izaias. Por mais que eu tenha sido gerado numa família que o Sr. considera modelo de “normalidade”, eu facilmente abdicaria dela. Preferia mil vezes que minha mãe tivesse encontrado um(a) outro(a) parceiro(a) e ter podido me oferecer uma família mais “normal”. Só que meu conceito de normalidade, certamente, é muito distinto do seu. Meu conceito de normalidade tem mais a ver com “harmonia” no relacionamento, com duas pessoas que decidem unir suas vidas em um matrimônio (ou parceria, se preferirem) e trabalhar juntas para educar seus filhos; mesmo que em alguns casos, esses não sejam biologicamente seus.
Meu conceito de normalidade tem muito mais a ver com educar meus filhos para estarem abertos para se relacionarem com um mundo que é muito diverso. Um mundo onde possamos conviver com tranquilidade e respeito para com todos os tipos de pessoas. Por isso eu não vou aos jornais escrever que ser heterossexual é uma condição com a qual estamos somente acostumados porque alguém disse em algum momento que era “normal”. Eu não vou aos jornais, e nem o faço aqui no blog, afirmar que ser gay é a única possibilidade decente de vida e que todo o contrário é uma aberração da natureza. Eu não vou aos jornais dizer que se eu educar bem o meu filho era não será gay! Eu não sou ridículo o suficiente para declarar que é necessário salvar alguém de sua condição sexual.
Mas não se preocupe Sr. Izaias. Se algum dia o Sr. cruzar com o filho(a) que eu educar com o auxílio do meu parceiro, o Sr. não vai conseguir diferenciá-lo(a) de uma criança “normal” criada por uma família “normal”. E tenho certeza de que ele(a) também não o tratará mal, afinal trataremos de dar-lhe uma educação primorosa, cuidando principalmente para que ele não se torne heterofóbico!


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