Quem me acompanha aqui pelo blog (sim, eu sei que são poucos!) sabe que eu não sou daqueles gays que vê uma necessidade urgente de sair levantando bandeira em defesa da “causa”. Sabe também que eu sou extremamente contra a expressão “orgulho gay”… não por me envergonhar de minha condição, mas por não ver motivo em me orgulhar a algo que me é “nato”: Eu sou gay! Nasci assim… e da mesma forma não me orgulho por ser branco, destro e ter olhos verdes (bem bunitinhos, diga-se de passagem – rss). Assim como não me envergonho e nem escondo essas “condições”!
Só que, ultimamente tenho começado a pensar de uma forma um pouco diferente sobre esses assuntos todos ( e talvez este post não seja suficiente para abarcar tão grande confusão na minha cabeça!). Lendo este post aqui da Sam, acabei chegando a esta entrevista interessantíssima com as blumenauenses que receberam o direito de ter seus filhos registrados em nome das duas, ou seja, eles tem duas mães. Não foram adotadas! É a primeira vez que a Justiça brasileira reconhece um vínculo exclusivamente afetivo, simbólico, como parental. ( E isso abre espaço para outro post!)
A matéria brilhantemente escrita por Eliane Brum versa a partir da afirmação que ambas fazem dizendo-se não ser homossexuais, que a questão da sexualidade é mais complexa que este rótulo. E é nesse momento que começa o imbróglio!!!
Lendo a matéria não há como concordar com elas em todas as afirmações e respeitar sua necessidade de não se deixarem “resumir” a condição sexual… como se um rótulo pudesse nos definir como pessoas e abarcar todas nossas necessidades e a variada gama de possibilidades que existem por aí. Sempre afirmei e continuo afirmando que minha orientação sexual não me resume. Minhas “escolhas” na vida falam mais de mim do que somente o sexo que eu pratico.
Minhas escolhas sobre “com quem’ decido construir minha vida, com quem decido compartilhar meu caminho. Minhas escolhas sobre o meu trabalho… sobre a pequena diferença que há entre ser um produtor cultural ou um artista (sim, outro post sobre isso também!)… Minhas escolhas sobre ser um cidadão consciente que respeita a diversidade e contribui para que as pessoas possam conviver de forma mais interessante e em paz! E, por aí vai! Vai muito longe.
Ao mesmo tempo, deixar de afirmar que sim, vivo uma relação homossexual, por mais que as posturas sexuais e de atitude não correspondam ao que comumente é aceito como “‘obvio”, ajuda a esclarecer a opinião pública (por mais restrito a que isso possa influenciar: amigos, colegas de trabalho, etc) sobre essas questões? Será que a “causa” nesse momento não deveria ser mais importante do que as questões e opiniões pessoais? Em que momento os questionamentos pessoais (extremamente coerentes, volto a afirmar que concordo com quase tudo o que elas dizem na entrevista!) devem se sobrepor as questões da coletividade? Ou seja, essa discussão levantada por elas auxilia a disseminar mais preconceito? Ou ainda, elas devem pensar nisso quando são colocadas sobre essa evidência em uma revista de circulação como a Época?
Vendo os comentários que a matéria suscitou, parece que foi realmente um tiro no pé da causa gay. Retirar da causa LGBThuahuytysav (sim, eu também detesto esses rótulos) essa conquista acabou por “dar a oportunidade” para muitos de menosprezar um acontecimento tão interessante. Sim… existem outras formas de se constituir uma família e a justiça do Rio Grande do Sul (sempre ela!) parece ter se dado conta disso. Ser pai ou mãe é muito mais do que “fornecer o esperma/óvulo”. Coisas que para um grande número de pessoas parece ser óbvia, mas ainda não o é para o “senso comum”.
E mais: para algumas pessoas, parece que existe uma dívida em nós por sermos “diferentes da normalidade”. ( O que é normal, cara-palida?) A necessidade de se diferenciar dos demais gays oferece para os homofóbicos de plantão munição para mais preconceito. Como se todas as pessoas que se agrupam sob o rótulo “heterossexualidade” também fossem iguais e agissem de acordo com uma cartilha.
Como diz um provérbio antigo: o que não soma, resta!



Vê só Max, o que eu acho é o seguinte (e vou no melhor estilo martelada agora): Não acho que foi tiro no pé coisíssima nenhuma. Para começar, e me desculpe a franqueza (não é pessoal, você sabe), dar tanta importância à causa gay minimiza tanto a questão quanto resumir um sujeito ao termo “homossexual”.
Para mim (e que fique bem claro que é um opinião bastante particular) somos pessoas e ponto final. Não existem gays e héteros. Existem seres humanos, que, como você bem disse, têm suas peculiaridades e características definidas por muito mais coisas do que apenas a orientação sexual.
O que senti que elas duas quiseram dizer foi o seguinte: “Estamos acima dessa discussão pequena”.
Você fala de coletividade, e eu concordo com você nesse ponto cidadão, mas se ser coletivo estiver sendo sinônimo de guetização, não é fortalecimento da classe ou o que seja. É “dar a oportunidade” para muitos de menosprezar um acontecimento tão interessante
(fico no aguardo de sua resposta)
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Comment by Fábio Buchecha — June 11, 2009 @ 8:08 am
Olá Fábio!!!
Fique a vontade pra falar o que quiser, mesmo no estilo “martelada”.
Vamos por partes: Também não acredito na “guetização” de nada! Nem de longe. Estou acostumado a transitar por muitos lugares e conviver com os mais variados tipos de pessoas, mesmo com as quais não concordo com o estilo de vida ou opiniões sobre a mesma.
O que eu acho é que entre “estamos acima dessa discussão pequena” e “não tenho saco pra contribuir com uma discussão, mesmo tendo condições de aportar muito à ela” existe uma linha ínfima e sutil… se unirmos isso ao fato de que elas tiveram a oportunidade de falar a uma revista importante e de grande circulação, essa postura acaba por cobrar mais responsabilidade ainda.
Também acredito no poder da palavra e acho que “Não somos Gays” é muito forte e , nesse caso, poderia ser muito bem substituido por “Somos gays sim, mas isso não é a parte mais importante da minha vida. É minha condição e ponto!” e poderia auxiliar em “ampliar” a discussão que, as vezes, concordo, beira a linha do mesquinho.
Não há “revolução” sem comprometimento… se eximir da discussão e se afirmar no discurso das nuances, re-afirmando as figuras do masculino e feminino como pré-requisito para a constituição de uma família é fazer uma contribuição negativa que simplifica uma discussão que elas disseram querer ampliar.
Mas, como vcs mesmo disse: é apenas minha opinião! heheheheh
Abraço e volte sempre!
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Comment by MaxReinert — June 11, 2009 @ 8:44 am
A discussão se ampliou. Estamos aqui falando sobre ela, não?
Palavras tem força, fato, e exatamente por isso que é tão arriscado ser sucinto (“não somos gays“) quanto “ampliar” a discussão (“Somos gays sim, mas isso não é a parte mais importante da minha vida. É minha condição e ponto!“). Se somarmos isso ao fato de que elas não são as represetantes supremas do universo GLBT ou qualquer outra sigla, devemos menos ainda cobrar esse comprometimento.
Cara, elas estão representando elas, a situação delas, que é única, falando em prol delas. Antes isso do que elas levantarem uma bandeira por “apoio à causa” e acabarem por estereotipar todos os gays/lésbicas/trânsgeneros/whatever.
Mas eu posso estar errado, e elas podem não saber o que estão dizendo. Afinal, são psicanalistas né
Finalizando, os homossexuais são uma minoria que é constantemente ataca, concordo, mas para mim a causa gay é um movimento natimorto. Cada um, individualmente, que mostre seu potencial como pessoa e pronto. Fim de discussão. #prontofalei
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Comment by Fábio Buchecha — June 11, 2009 @ 9:05 am
[...] contou no texto Elas são gays sim… por quê não? que se partiu do meu texto sobre transexuais para repensar sua própria militância e a normalidade [...]
Pingback by Divinização do normal | A vida como a vida quer — June 11, 2009 @ 3:49 pm
Max,
sabe uma coisa que me deixou encafifada na matéria? Ao mesmo tempo em que elas afirmam que não são gays, elas batem no “feminino” e no “masculino” como se essas definições fossem naturais, como se não houvesse nenhuma representação social (e historicamente construída) aí. Me arrepiei ao ouvir que uma ocupava a “posição feminina”, outra tinha características masculinas, apesar de usar vestido (usar vestido = ser feminina? Alguém por favor me explica o que é “feminina”?).
Falar de gênero não é fácil. Nesse ponto, concordo com elas que toda redução tende a ser burra. Mas se colocar fora dessa discussão, como se isso fosse conversa de comadres e elas estivessem acima (ou fora) disso é reforçar um discursso heteronormativo: “Não somos gays porque eu sou masculina e ela é feminina”. Será?
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Comment by Carla — June 11, 2009 @ 6:48 pm
Oi Max, só agora tive tempo para ler o texto. Seus leitores talvez sejam muitos, mas gostam de ler com calma..rs.
A questão do orgulho é algo que sinto necessária para mostrar as pessoas que estamos ligados a alguma luta contra o preconceito e para desmistificar alguns clichês, pois quanto mais pessoas gays, negros, mulheres, afins assumirem seu orgulho de ser o que são, mas as pessoas ao redor podem compreender que ela ser negro, gay ou mulher é apenas parte de um todo. Eu posso lutar pelos direitos da mulher sem declarar que sou feminista, mas se eu declaro que sou feminista preciso ser mais vigilante. Na verdade, acho que o orgulho nesses casos não significa se orgulhar de algo que é nato, mas de mostrar que se é. É claro que isso não define ninguém, mas para as pessoas é um começo para acabar com alguns preconceitos.
No caso das entrevistadas, concordo com você, não vejo problema em dizerem que são homossexuais e concordo com o Fábio de que somos todos seres humanos. Porém, a sociedade não nos vê como seres humanos, então se você afirma que é gay é claro que algumas pessoas o tratarão diferente, a sociedade sempre tentará nos colocar num clichê, num padrão. E acho que é disso que elas querem fugir, de clichês, de padrões, de virar bandeira para um movimento que elas talvez não apoiem. As pessoas têm muito receio de se colocar uma tag atualmente. Quantas e quantas mulheres negam com veemência que são feministas, mas são muito mais revoltadas com a discriminação por gênero do que eu. É o medo de se colocar rótulos, pois aí cai no clichê, as outras pessoas tenderão a enxergá-la por quem você declarou ser e não por suas atitudes em si.
E infelizmente, é fato o que você disse no final, um acontecimento como esse acaba não ajudando na luta contra o preconceito. Apesar de que elas são duas mulheres, e sabemos que no caso de montar uma família isso é melhor aceito do que no caso de dois homens. Porque a questão de gênero também está fortemente intrínseca na causa gay. Daí ainda vejo a necessidade de se dizer “orgulho de ser gay, negro, mulher, etc”. Porque a sociedade precisa mudar, precisa perceber o que o Fábio disse, que cada pessoa é um ser humano como qualquer outro e que ninguém deve julgar o outro por suas escolhas.
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Comment by Srta. Bia — June 14, 2009 @ 6:18 am
[...] de fazer o que quiser com o seu próprio corpo mas, de uma certa forma, retomamos a questão sobre as moças gays que não são gays: Quando se conquista certa visibilidade na mídia, aumenta com ela a responsabilidade do [...]
Pingback by Dustin Lance Black Sex Photos | No Ghetto — June 21, 2009 @ 6:28 am