Embora sendo uma novela (ou seja, folhetim por excelência) não podemos dizer que A Favorita não tenha sido, em partes, diferente das demais existentes por aí. Seja pelos excessos melodramáticos que teve, seja pela quantidade de reviravoltas na trama ou ainda por tocar em temas que por si só são difíceis de se resolver.
Dentre esses temas, três deles tem a ver com este blog: a relação de Stela / Catarina, o caso do ex-gay Orlandinho e a declaração de amor de Flora por Donatella.
Não me cabe fazer análises aprofundadas sobre os aspectos psicológicos e/ou estruturais da trama, visto que não tenho estofo para tanto…. por isso vou dar apenas minhas impressões sobre os casos e caso você queira ler algo mais aprofundado sugiro esses dois links (esse e esse!) com textos do jornalista Eduardo Peret sobre o assunto.
De certa forma, a abordagem melhor sucedida sobre a sexualidade na novela foi a da relação Stela/Catarina. Mostrou, em outras coisas, que é possível uma pessoa homossexual e uma heterossexual manterem uma relação de amizade forte. Obviamente, em algum momento do processo, houve uma paixão entre ambas que não se realizou ou se tornou platônica. Mas, quem nunca teve uma paixão que não tinha espaço para se desenvolver? Nem estou falando somente por causa da sexualidade. Existem paixões que não vingam (ponto). Em relação aos textos e desenvolvimento das personagens, me pareceu a mais equilibrada e esclarecedora. Soube passar para um público pouco acostumado com essas questões algumas das chaves das personagens de mulheres que amam mulheres. outro ponto positivo foi a interpretação das atrizes, com destaque para o trabalho de Lília Cabral que mostrou inteireza em todos os momentos e soube colocar o misto de desconhecimento/estranhamento para um hetero que quer entender um outro universo distinto do seu. Parece pouco, mas não é. A maioria de suas cenas poderiam ter caído no que havia de mais preconceituoso… mas não cairam.
Eu, particularmente aprecio que as duas não tenham ficado juntas no final da novela. E nem me venham com “ahhh… mas ficaram amiguinhas demais pro meu gosto e foram para B.As que é suuuuper gay-friendly” que não rola! O fato é que Catarina disse em alto e bom tom: “Se” eu fosse do seu time, você seria a única pessoa que me interessaria. Ou seja, para o grande público, elas não ficaram juntas. Ficaram amigas e eu aprovo a idéia de que gays e heteros podem sim desenvolver relações de amizade sem sexo envolvido. Amém!
Já em relação ao Orlandinho, tudo que havia de pior parece ter sido destinado a este personagem. Desde o princípio ele parecia não ter um foco bem definido e sua resolução então parece não ter mostrado porque ele existia na trama. Orlandinho e sua escolha ex-gay só serviram para criar mais dúvidas na cabeça de várias famílias que eu conheço. O drama do “ai meu filho, larga essa vida e vira homem” voltou a muitas conversas na hora do jantar.
Une-se a isto o fato do termo bissexualidade nunca ter sido mencionado. Nem na novela, nem nos programas que falavam da novela…nunca! Porque esse medo de tocar nesse tema? Bissexualidade ainda assusta? É algo ainda distante do público? Ou seria apenas um preconceito do autor (como de muitos membros da “comunidade”)?
A interpretação extremamente caricata de Iran Malfitano acabou também não ajudando muito na trama. Ou ficamos com o gay frutíssima e fútil ou o macho estereotipado. Difícil criar empatia com qualquer um dos lados. Aliás, não passou pela cabeça dele e dos autores que um bom macho também pode sentir tesão pelo Cauã? Bom… acho que até uma alface corre o risco de sentir tesão pelo Cauã!
O caso é que se perdeu a chance de falar sobre algo que parecia estar implícito e mal desenvolvido nesta personagem: a indecisão gerada pelo amor desenvolvido, ao mesmo tempo, por pessoas de gêneros diferentes. O que poderia ter sido um prato cheio para um debate acabou virando um tormento na vida real. O próximo que usar o argumento comigo de que “se até o Orlandinho virou homem, porque vc não vira? ” juro que leva uns tabefes!
E, por fim, a declaração de amor de Flora por Donatella! Ahhh…. nem vou comentar, né? Aí já virou viagem da “comunidade” que quer enxergar sexualidade em tudo. O ‘caso’ delas não tinha nada de sexual. E até acho que nem passou pela cabeça do autor isso… mas, para gerar notícia, o povo quase sempre, se passa!