Não fui eu quem disse!
Mas me mandaram o link… e é claro que a gente gosta quando é lembrado!
Quer saber do que eu estou falando?
Dá uma olhada nesse link aqui

Filed under: Indicando! | Max Reinert | July 30, 2008 Comments (0)

Ser jornalista deve ser uma profissão muito difícil. Ser jornalista em um segmento voltado ao público gay, mais ainda. Além das dificuldades diárias em conseguir pautas decentes e alimentar uma publicação (jornal, revista, site, etc.) corre-se o grande risco das repostas obtidas por essa “parcela” da população que se auto proclama “informada e atuante”. Trocando em miúdos… haja paciência para tanta cobrança.

Eu costumo ler notícias sobre o universo GLBTT em dois canais de comunicação: o site da revista ACapa e o site do MixBrasil. Ambos os espaços têm, além das notícias normais, blogs de vários jornalistas e pessoas interessantes. Hoje estava lendo no blog do Sérgio di Pietro Jr uma postagem intitulada A X-Fobia, onde ele questiona um pouco algo em que veio batendo na tecla aqui neste espaço: o respeito à diversidade.

É inconcebível que um seguimento da população que sempre foi marginalizado e preconceituado realize estas mesmas práticas dentro de seu “gueto”! Ou seja, lá fora lutamos pela diversidade e pela aceitação da maioria, aqui dentro temos a necessidade de enfiar cada indivíduo em um quadradinho classificatório. E “ai” de você se quiser transitar por “classes” diferentes. Barbies serão barbies eternamente, os pseudo-discretos não se misturam com as pocs e “é” assim! Quem gosta de bate-cabelo só pode ouvir isso e se quiser ser moderninho não pode ir a qualquer lugar não. Haja paciência.

“É triste ver que a humanidade é tão burra e bairrista. Brigam e se ofendem por religião, orientação sexual e até estilo musical.”

Por outro lado, ainda percebo que existe uma certa necessidade de que tudo vire polêmica para “ganhar a audiência”. Já está enchendo o saco que todo e qualquer slogan de uma marca mundial seja acusado de homofóbico. E a prática de “espreme que sai sangue” já foi globalizada e é utilizada nas redações GLBTT.

Um exemplo claro é a matéria (também de ACapa) intitulada Travesti ganha na justiça guarda de gêmeos. Ou a matéria está mal escrita ou quem colocou o título foi bastante mal-intencionado. De qualquer forma, há um equívoco.

A matéria diz:

Por determinação da justiça, Bruna recebeu há cerca de 20 dias um casal de gêmeos. Isso porque o casal se inscreveu no programa Família Acolhedora, da prefeitura do Rio. (…) O projeto funciona da seguinte maneira: as famílias que nele se inscrevem recebem temporariamente (…) Marcelo Garcia, secretário Municipal de Assistência Social, disse que a aprovação do casal no programa pela Justiça é uma mostra de que a sociedade passa a entender que existe hoje novos tipos de família (…).

Pois bem, parece ter ficado claro que a família (formada por um homem e uma travesti) se “inscreveu” no projeto e foi aceita para participar do mesmo. Certo? Oras, ao utilizar o título citado acima, parece haver a vontade de criar uma polêmica. O título dá a entender que a travesti teve que entrar com uma ação para “ganhar” o direito de ter a guarda das crianças. E, pelo jeito, isso não parece ser correto. Volto a afirmar: ou a matéria está mal escrita ou o título foi mal escolhido.

De qualquer forma, aqui estou eu: mais um pra cobrar postura dos jornalistas. Ser jornalista deve ser uma profissão muito difícil.

Filed under: Indicando!,Pensando! | Tags: , , , | Max Reinert | July 27, 2008 Comments (1)

ESPECIALISTAS FAZEM DEBATE SOBRE HOMOSSEXUALIDADE NA LIVRARIA NOBEL
DO SHOPPING FREI CANECA, NESTE SÁBADO, 26

O psicólogo Cláudio Picazio, autor dos livros Diferentes Desejos e Sexo Secreto, ambos das Edições GLS, o jornalista Júlio Wiziack e o psicólogo Klecius Borges participam neste sábado, dia 26, às 18h, de um bate-papo sobre homossexualidade com o público na Livraria Nobel, do Shopping Frei Caneca. No encontro, eles vão abordar temas polêmicos relacionados à homossexualidade, como terapia afirmativa, identidade e estilo de vida. Vão debater também questões sobre como assumir a orientação sexual perante a família e os amigos e enfrentar as dificuldades nos relacionamentos familiares e no ambiente de trabalho.

No livro Diferente desejos – Adolescentes homo, bi e hererossexuais, Picazio apresenta um trabalho completamente inédito no Brasil. A obra, em formato de perguntas e respostas, tira as dúvidas sobre orientação sexual – o que é homossexualidade, bissexualidade, heterossexualidade – de quem se vê confrontado com a questão, mas não sabe como resolvê-la.

Já em Sexo secreto – Temas polêmicos da sexualidade, o psicólogo aborda assuntos freqüentemente expostos pela mídia, com grande distorção: papéis sexuais, homo e bissexualidade, garotos de programa, travestis, drags e perversões sexuais, entre outros. O objetivo da obra é ajudar educadores responsáveis pela disciplina de orientação sexual a tirar dúvidas de maneira clara e sem preconceito, abrindo caminho para um exercício da sexualidade mais responsável e consciente pelos adolescentes.

Veja abaixo mais informações sobre os profissionais:

Cláudio Picazio é formado pela Universidade São Marcos com especialização em sexualidade humana pelo Instituto Sedes Sapientae. Psicólogo clínico desde 1983, atende a adolescentes e adultos e oferece terapia a casais homo e heterossexuais. Também desenvolve grupos de apoio e faz atendimento de portadores de HIV positivo.

Júlio Wiziack, natural de Barretos, São Paulo, é jornalista diplomado pela ECA-USP. Estudioso dos temas relacionados à homossexualidade, colabora com artigos para revistas especializadas e atualmente trabalha no jornal Folha de S.Paulo. É autor do livro Abrindo o armário, da editora Jaboticaba.

Klecius Borges é psicólogo pela Universidade Federal de Minas Gerais, pós-graduado pela Universidade de São Paulo e vem participando, ao longo dos últimos 20 anos, de diferentes vivências, principalmente em Gestalt Terapia e Terapia Cognitiva Comportamental. Recentemente, tem realizado cursos e participado de grupos de orientação Junguiana. Atua em Terapia Afirmativa para gays e lésbicas.

Serviço
Evento: Bate-papo sobre homossexualidade com Claudio Picazio, Júlio Wiziack e Klecius Borges
Data: 26 de julho, sábado
Horário: 18h
Local: Livraria Nobel – Shopping Frei Caneca
Endereço: Rua Frei Caneca, 569 – 1º Pavimento — Lojas 231/234
Informações: (11) 3472—2272

Mais uma dica da Sam! A principal fornecedora de conteúdo relevante da Web!!!! ;)

Filed under: Indicando! | Tags: , , , | Max Reinert | July 24, 2008 Comments (1)

Uma das coisas que eu acho mais interessante de analisar é de como as pessoas se enrolam em seus discursos. Eu me considero bastante “moderninho” e não tenho muitos pudores com a sexualidade/frequência/fetiche dos outros. Tenho com a minha (hehehe). Ao mesmo tempo, não tenho a mínima paciência em ouvir outras pessoas dizendo como eu devo viver ou deixar de viver.

Abaixo eu indico três textos que acho excelentes… embora não concorde de todo com eles:

Em breve todos seremos Bi-Sexuais

O Casamento acaba com o Tesão

A (falsa) moral e o (promíscuo) sexo gay

Volto a algo que tenho tentado defender aqui: respeito à diversidade. Não acredito que todos seremos bi-sexuais (embora concorde que há uma tendência a haver muito mais bis no mundo!). Não acredito que o casamento acabe com o tesão (acho que é incompetência mesmo!). E não acredito que o sexo gay é sempre promíscuo e nem que toda moral é falsa!

Deixem-me viver sem rótulos… eu prometo que tento deixá-los também! ;)

Filed under: Indicando! | Tags: , , , , | Max Reinert | July 22, 2008 Comments (6)

Reapasso abaixo matéria da Revista Época, que discute a atração dos “heteros” por travestis. Bastante interessante algumas discussões levantadas pelo jornalista Ivan Ramos.

Márcia, travesti de classe média paulistana. "Os homens que saem comigo são héteros que topam tudo"

Por que homens procuram travestis?
Muitos parecem precisar de uma forma atenuada de sexo com outro homem. A ambiguidade dessa relação sugere muitas outras fantasias
Ivan Martins

Mendes tem 37 anos, cabeça raspada e brinco na orelha direita. Pelos modos e pela aparência, o rapaz branco de família evangélica não se distingue de outros milhões de jovens paulistanos, exceto por uma particularidade importante: ele namora um travesti, Flávia. Os dois se conheceram há cinco anos no centro de São Paulo e, de lá para cá, constituem um casal. Na semana passada, sentado ao lado de Flávia na sala de um apartamento na Rua General Osório, Mendes explicava, em voz pausada, as bases da relação. “Nosso relacionamento é hétero”, afirma. Isso quer dizer que, no sexo, ele é a parte viril do casal, enquanto Flávia cumpre o papel de mulher. “Mas entre nós não existe só sexo. A gente tem amor e cuida um do outro.” Com cabelos negros e corpo esguio, Flávia ganha a vida se prostituindo nas ruas. Ele trabalha nas ruas como vendedor.

As palavras de Mendes revelam, sem explicar, um dos grandes mistérios da sexualidade moderna: a sedução exercida pelos travestis. Desde meados dos anos 70, quando despontaram nas esquinas das metrópoles brasileiras com saias minúsculas e seios exuberantes, essas criaturas híbridas conquistaram um espaço enorme no imaginário sexual do país. Todos os dias, milhares de homens se esgueiram por avenidas sombrias para comprar o prazer oferecido por seus corpos alterados. O risco envolvido nesse tipo de operação ficou claro há duas semanas, quando Ronaldo Nazário, o jogador de futebol mais famoso do mundo, transformou-se no protagonista de um escândalo que tinha como coadjuvantes três travestis do Rio de Janeiro. Ele foi com o grupo ao hotel Papillon e, durante a madrugada, desentendeu-se com um deles, Andréia Albertini. Acabaram todos na delegacia, de onde a história ganhou o mundo. A avalanche moral que desabou sobre Ronaldo a partir daí foi incapaz de responder à questão mais simples colocada pelo episódio: por que homens adultos e mesmo famosos arriscam segurança e reputação e vão atrás de travestis?

O antropólogo americano Don Kulick passou um ano vivendo com travestis em Salvador, sabe muito de seu cotidiano e mesmo de suas preferências íntimas. Mas não se arrisca a explicar quem são seus clientes. “Essa é uma grande incógnita. Embora acompanhasse os travestis todas as noites, não consegui distinguir um cliente típico”, diz. O livro de Kulick, professor da Universidade Nova York, sairá em português no fim deste mês, pela editora Fiocruz, com o título Travestis: Prostituição, Sexo, Gênero e Cultura no Brasil. Kulick conseguiu uma descrição razoavelmente rigorosa do que os fregueses exigem dos travestis. Durante um mês, pediu a cinco deles que registrassem o tipo de serviço prestado nas ruas. O resultado de 138 programas: em 52% dos casos os clientes queriam sodomizar, em 19% exigiam sexo oral, 18% queriam fazer aquilo que se costuma chamar de “troca-troca”, 9% pagaram para ser sodomizados e 2% para ser masturbados. “Não é insignificante que 27% dos homens nessa amostragem quisessem ser penetrados por travestis”, escreve s Kulick. “Mas esses homens não são maioria, como os travestis geralmente afirmam.”
”Não é irrelevante que 27% dos homens da amostragem quisessem ser penetrados pelos travestis”
DON KULICK, antropólogo americano

A confiar apenas no que dizem os travestis, o porcentual de seus clientes que se portam como homossexual passivo é alto. “Nove em cada dez homens querem ser penetrados”, diz Flávia, a namorada de Mendes. “Se o travesti não for bem-dotado e ativo, não ganha a vida na rua.” Exagero? Talvez. Assim como as prostitutas, os travestis têm uma relação antagônica com aqueles que pagam para usar seu corpo. Muitos não suportam exercer o papel viril que se exige deles na prostituição e o fazem com grande sofrimento, porque não encontram outra forma de ganhar a vida. Vingam-se dessa situação degradante com a mesma arma que a sociedade usa para humilhá-los: questionam a hombridade do freguês e o ridicularizam.

O psiquiatra Sérgio Almeida trabalha com travestis em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, e sua experiência corrobora em alguma medida a versão de Flávia. Cabe a Almeida a tarefa difícil de distinguir entre os travestis – definidos como homens que gostam de agir e sentir como mulher – e os transexuais, que se sentem mulheres aprisionadas em corpo masculino. Para estes, recomenda-se a cirurgia de troca de sexo. Para os travestis, ela equivale a uma mutilação e pode levar ao suicídio. Almeida gasta dois anos com cada paciente até decidir em que categoria ele se encaixa. “Desde 1997, fizemos 95 cirurgias e não tivemos nenhum problema”, afirma. O pós-operatório mostrou ao psiquiatra que ex-travestis são freqüentemente abandonados por seus parceiros quando perdem a anatomia masculina. E que os operados que insistem em continuar na prostituição perdem também a carteira de clientes. Algo de crucial desapareceu na cirurgia. “Não é verdade que os homens procuram travestis porque estes se parecem mulheres”, diz ele. “Eles querem o algo mais que as mulheres não têm.”

Um travesti espera clientes na noite de São Paulo

Os próprios envolvidos têm opiniões diferentes. Um leitor anônimo de epoca.com.br enviou depoimento no qual afirma, basicamente, que os travestis são a melhor opção sexoeconômica. Diz ele: “Já saí com vários travestis. O que me atraiu foi justamente o desejo físico pelos bumbuns e seios avantajados. Ficar com uma travesti para mim é conseguir a baixo preço uma mulher de porte e formas que eu jamais conseguiria pagar ou namorar”. Márcia, travesti paulista cuja foto abre esta reportagem, repele qualquer tentativa de analisar os homens com quem sai voluntariamente. “Para mim, homens que saem com travestis são heterossexuais de cabeça aberta, que topam qualquer coisa”, afirma. Advogado, casado, pai de uma moça, diz que tem impulsos de vestir-se e agir como mulher desde criança, mas que isso nunca o impediu de ter relações normais com mulheres: “Quando saio com um homem, ele não importa. O que me interessa é reforçar minha identidade de mulher”.

O mistério em torno dos homens que procuram travestis é proporcional à ignorância que cerca os próprios travestis. Como grupo populacional, eles são escarçamente estudados: não se tem a menor idéia de quantos sejam, no mundo ou no Brasil. Os líderes das organizações de travestis estimam que haja 5 mil ou 6 mil deles no Rio de Janeiro e uma quantidade muito maior – fala-se em 30 mil – em São Paulo. Nenhuma ciência ampara essas estimativas. Sabe-se que há travestis de Porto Alegre a Manaus, inclusive em cidades pequenas. Tem-se a impressão, entre os que lidam com o assunto, que o Brasil é o líder mundial nessa categoria – e o principal exportador para os países europeus, sobretudo Itália e Espanha. “O Brasil tem a maior população mundial de travestis e o maior número de travestis per capita”, afirma Kulick. Trata-se de uma opinião bem informada, mas é apenas opinião. Líderes de organizações de travestis como Keila Simpson, presidente da Articulação Nacional de Travestis e Transexuais, querem que o censo inclua perguntas que permitam quantificar os diferentes grupos sexuais do país. “Como se pode dirigir políticas públicas a uma população de tamanho ignorado?”, diz.

Andréia Albertini, travesti que levou Ronaldo à delegacia e às manchetes.

A palavra-chave quando se trata de explicar a atração exercida pelos travestis parece ser ambigüidade. Eles são percebidos simultaneamente como homem e mulher, uma incongruência que mexe com as profundezas da psique humana. “O travesti mobiliza o desejo como mobiliza a repulsa”, afirma a psicanalista carioca Regina Navarro Lins. Outra psicanalista, Maria Rita Kehl, vê duas razões no fascínio pelos travestis. A primeira é que, por ser uma mulher com pênis, ele captura os restos das fantasias sexuais infantis. A outra está no fato de os travestis encarnarem a feminilidade de uma forma absoluta, que nenhuma mulher contemporânea aceitaria. “Só um travesti saberia ser tão feminino quanto quer a fantasia de alguns homens”, diz Maria Rita. “Se alguém sabe o que é ‘ser mulher de verdade’ (uma ficção masculina), é justamente o travesti.” Os próprios travestis são taxativos ao afirmar que seus fregueses procuram neles a diferença: a mulher com falo, a fantasia, o risco. “Transgressão é essencial. O proibido atrai”, afirma Marjorie, travesti com 20 anos de experiência nas ruas, que hoje trabalha na Secretaria de Assistência Social da Prefeitura do Rio de Janeiro. “As coisas que se dizem sobre os homens que saem com travestis são lendas machistas.”

Paira sobre essa discussão uma palavra que os psicanalistas detestam: patologia. Sim, as pessoas têm o direito inalienável de manter relações sexuais com quem quiserem, desde que haja consentimento mútuo. Posto isso, cabe a pergunta: está bem de cabeça um homem casado (como parece ser a maior parte dos clientes dos travestis) que abre a porta de seu carro na porta do Jockey Club, em São Paulo, e paga R$ 40 por uma hora de sexo com um homem que parece ser mulher? Os especialistas não têm uma resposta unânime a isso.

“Só um travesti saberia ser tão feminino quanto quer a fantasia de alguns homens”, diz uma psicanalista

Liberais dizem que, bolas, desejo é desejo, e não se pode explicar ou reprimir. Há que aceitar. “Entendo que os homens que só se realizam sexualmente com travestis possam estar mal resolvidos em sua orientação sexual”, diz Maria Rita Kehl. “Mas considerar que todos os que gostam de travestis são homossexuais acovardados é uma redução preconceituosa.” Na outra ponta, fala-se em sofrimento e confusão por trás dessa forma específica de prazer. “Para alguns homens é patológico”, afirma o psicanalista Oswaldo Rodrigues, do Instituto Paulista de Sexualidade. “Muitos fazem isso num impulso de autodestruição.”

Há os incapazes de lidar com seu próprio desejo por outros homens. Há os que buscam cumprir seu “papel social” no corpo feminilizado dos travestis. Há de tudo, e nem tudo é a festa do desejo que a modernidade implicitamente recomenda. Onde está o limite? Na dor. De acordo com o psiquiatra Ronaldo Pamplona da Costa, com mais de 30 anos de experiência terapêutica, muitos homens que saem com travestis o procuram em estado de sofrimento. Eis o que diz a respeito a psiquiatra Carmita Helena Abdo, que coordena o Projeto de Sexualidade do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo: “Se as pessoas fazem sexo responsável, não estão sofrendo e não me procuram, não quero normatizar a vida de ninguém”.

Filed under: Conscientizando!,Pensando! | Tags: , , | Max Reinert | July 19, 2008 Comments (3)

Cartaz neo-nazista!

Já tinha visto este cartaz há um tempo na web. Ele foi espalhado pela cidade de Santo Agostinho (30 km de Recife) no dia 28 de junho passado. Segundo consta era uma resposta (assinada pela Frente Nacionalista de Pernambuco / Carecas do Brasil – PE) à celebração do Dia do Orgulho Gay.

Relutei em trazer essa discussão para o blog e até deixei o tempo passar um pouco para poder olhá-la de forma mais distanciada.

Está claro que o cartaz é uma agressão às pessoas de orientação homossexual. Isso não se discute, pois ele indica que somente héteros podem constituir famílias, o que sabemos não é verdade!

Mas, os equívocos não param por aí: Afinal, o que é que caracteriza uma “família”? A presença de um homem e uma mulher vivendo em conjunto? A geração de filhos? Então, um casal hétero que não é fértil não constitui uma família? Filhos adotados são considerados parte da família? Nesse caso, um casal homossexual que adota uma criança pode ser uma família? São perguntas antigas e que não ter razão de ser, mas pelo que parece com esse cartaz, ainda existe gente que está um pouco confusa em relação à isto.

Outro pensamento que esse cartaz me levantou foi exatamente quem o assina. Parece haver uma contradição aí: Os “carecas” sempre são relacionados aos movimentos “neo-nazistas”. (Corrijam-me se eu estiver equivocado.) Mas esse movimento não prega a pureza da raça? Como existe no Brasil alguém que ainda acredita que possamos ser/ter uma raça pura?

Que eu saiba aqui no sul e no sudeste ainda persiste um preconceito muito grande em relação aos nordestinos (poucos admitem, mas existe!). Ou seja, a não ser que os “carecas do nordeste” sejam imigrantes de raça pura, como podem eles lutar por uma “pureza racial”? Eu sinceramente tenho medo do que poderia acontecer em um congresso nacional dessa associação.

E para terminar (com uma provocação, é verdade!) acho que é muito complicado alguns “termos” utilizados nas campanhas de afirmação da identidade homossexual. “Orgulho Gay” é uma expressão estranha. Assim como também acharia equivocado se o termo fosse “orgulho heterossexual”. Do que você tem orgulho? Eu tenho orgulho das minhas conquistas, das minhas realizações, dos feitos. Não sei se tenho orgulho de minha orientação sexual. Ela me é natural. Assim como me é natural a cor da pele. Não tenho orgulho de ser branco, negro ou mestiço! Acho que essas afirmações só servem para aumentar a distância entre os “seres humanos”.

Vamos sim ter orgulho pela aceitação da diversidade. Vamos sim ter orgulho por conseguir melhores condições de vida para todos… sem distinções. Temos tanto a fazer em relação a isso. O tempo, o esforço e o dinheiro gastos com esses cartazes poderia ter sido utilizado em coisas muito mais edificantes!

Filed under: Conscientizando!,Pensando! | Tags: , , , | Max Reinert | July 16, 2008 Comments (9)

Lindsay Lohan assume relacionamento gay

Depois de muitos boatos e fotos comprometedoras a atriz Lindsay Lohan finalmente resolveu assumir seu relacionamento com a DJ Samantha Ronson, durante uma festa em que comemorava seus 22 anos.

“Só quero ter um ano feliz e saudável, continuar no caminho que estou e estar com a pessoa que eu gosto. E minha família”.

Em maio, antes de se assumir publicamente seu romance, Lindsay e Sam foram flagradas se beijando em uma festa em Cannes.

Maracanã confirma show de Madonna em Dezembro

A assessoria do Maracanã acaba de confirmar que o estádio está reservado para a apresentação de Madonna nos dias 13 e 14 de dezembro.

Segundo informações da Folha Online, os shows da cantora em São Paulo devem acontecer nos dias 17,18 e 19 no estádio do Morumbi. No entanto, os responsáveis pelo estádio são-paulino estão evitando dar qualquer informação publicamente por ordem da “Time for Fun” (ex-CIE Brasil), responsável por trazer a diva ao Brasil.

A última vez que Madonna veio ao Brasil foi em 1993, com a turnê “The Girlie Show”. Estima-se que, este ano, a turnê “Sticky & Sweet Tour” renderá a rainha cerca de US$ 5 milhões (R$ 8 milhões) por show.

E já que o assunto é Madonna: Erótica completa 15 anos!

Em 1992 Madonna deixou toda a sociedade norte-americana e, também, do resto do mundo, boquiaberta. Os mais conservadores ficaram em estado de choque. Três foram os motivos: 1º o clipe da música “Erotica”. No vídeo a diva aparece praticando orgias, sadomasoquismo, pedindo carona nua, entre outras cenas. O segundo motivo foi o disco homonimo, que foi lançado na rasteira do clipe, a esta altura proibido. Para fechar com chave de ouro a publicidade de seu (então) novo disco, a cantora anunciava o lançamento de um livro com edição limitada que teria ensaios eróticos, tendo ela como protagonista.

Em outubro daquele ano todos os fãs de Madonna correram para as lojas de discos (naquela época o vinil reinava) e livrarias para conhecer e comprar o tal do “Sex Book”. O choque começava aí. Não se tratava exatamente de fotos sensuais. As imagens eram completamente explícitas. Menores de idade nem podiam chegar perto daquele objeto de desejo, que logo desapareceu. Esgotou total. E o que havia de tão perturbador naquele livro com fotos?

Imagine uma foto em zoom com a rainha do pop fazendo cunete. Sim, esta é uma das imagens. Outra: metade do corpo de Madonna submerso na água, e o que se vê é a sua vagina flexionada acima da água. Quem também dá as caras no Sex Book é a top model barraqueira Naomi Campbel. Em uma das fotos surge Naomi atrás de Madonna e, na frente da cantora um modelo a penetrar à diva. Na imagem seguinte Naomi está sexualmente deitada no chão de uma piscina, e com um tubo de protetor solar Madonna encena o gozo a esguichar em cima da modelo.

E isso não é nada, são mais de quarenta ensaios, com espaço para surubas e até histórias em quadrinhos. Sobre a publicação: O livro tem formato tablóide, a sua capa é de metal, em média deve haver uns 50 ensaios. Bom, e se você é daqueles que não pôde comprar o livro na época, não fique amargo! Nós separamos pra você as imagens mais interessantes contidas no livro. Se inspire!

* Todas essas notícias são do site ACapa!

Filed under: Indicando! | Tags: , , | Max Reinert | July 13, 2008 Comments (4)

Último dos artigos que recebi pela lista de discussão, coloco abaixo uma entrevista com o geneticista Andrea Camperio Ciani pelo jornalista da Folha Rafael Garcia.

O homossexualismo não vai contra a natureza

Geneticista diz que os genes que tornam homens mais propensos a se tornarem gays são transmitidos por suas mães

SE O HOMOSSEXUALISMO não estimula a reprodução, como ele pode sobreviver à seleção natural? A resposta para essa charada, um quebra-cabeça secular da biologia, está ganhando agora uma resposta coerente, que sobreviveu ao primeiro teste de lógica. Defendida pelo biólogo Andrea Ciani, a nova teoria indica que o homossexualismo masculino tem um componente genético herdado por parte de mãe, e os genes por trás dele são os mesmos que, em mulheres, estimulam a fertilidade.

RAFAEL GARCIA
DA REPORTAGEM LOCAL

Eis, o homem!

Ciani, geneticista da Universidade de Pádua (Itália), apresentou as bases da teoria na terça-feira -cifrada em um estudo cheio de fórmulas matemáticas- na revista “PLoS One”. Com longa experiência em estudos com macacos, o cientista tem se dedicado nos últimos anos a um outro tipo de primata: o Homo sapiens. O que ele aprendeu com seu trabalho? “O homossexualismo não é contra a natureza.”
Em entrevista à Folha, Ciani abre mão da estatística e traduz o significado de sua teoria.

FOLHA – O que diz seu estudo?
ANDREA CAMPERIO CIANI – Eu publiquei uma pesquisa em 2004 em que mostrei que homossexualismo em homens está conectado com um aumento na fertilidade das mães e avós da linhagem materna desse indivíduos. O que fiz agora nesse estudo para a “PLoS” foi desenvolver isso. Nós já sabíamos o que estava ocorrendo, mas não entendíamos a dinâmica, não tínhamos o modelo correto.

FOLHA – Como vocês criaram o modelo correto?
CIANI - Nós procuramos modelos genéticos que já existiam [para explicar outras características] e seguimos quatro pré-requisitos empíricos. O primeiro é que o homossexualismo está presente em todas as populações humanas. O segundo, que não há nenhuma população em que a maioria das pessoas sejam homossexuais. O terceiro é aquele que tiramos de dados empíricos: que o homossexualismo tende a seguir em famílias pela linha materna. Isso significa que se você é homossexual, há uma probabilidade maior de o seu tio materno sê-lo. O quarto, que achamos em 2004, é que mães e tias da linha materna de homossexuais costumam ter proles maiores.
Na literatura científica há muitos modelos para difusão genética de características. Há modelos que testam a difusão com um único “locus” [gene], outros com mais genes. Quando começamos a testar os modelos com dois genes, todos falharam, exceto um, que é esse modelo da “seleção sexualmente antagonística”, baseado em dois genes em dois diferentes cromossomos. Um tem que ser no cromossomo X -que os homens recebem apenas de suas mães-, e o outro pode ser nos cromossomos não sexuais. Só esse modelo explicou todos os pré-requisitos que encontramos empiricamente.
Foi uma coisa inesperada. É a primeira vez que um modelo de seleção sexualmente antagonística funciona para uma característica humana. O modelo mostra características peculiares, que dão uma vantagem reprodutiva para um sexo, e dão desvantagem para outro.
O normal é imaginar que um determinado gene dá vantagem para todas as pessoas que o carregam. Mas genes como esses ligados à homossexualidade humana dão vantagem quando estão em mulheres, porque as fazem produzir mais prole, mas ao mesmo tempo criam desvantagem reprodutiva em homens, com a possibilidade de se tornarem homossexuais.

FOLHA – Isso não pode ser causado por um fator social ou psicológico?
CIANI – Nós estudamos apenas os componentes genéticos, mas não estou dizendo que o homossexualismo é determinado pelos genes. Ele é apenas influenciado. Há outros componentes, biológicos, psicossociais, experiência de vida…

FOLHA – Mas como ocorre essa influência? Como é a fisiologia?
CIANI – Eu fiz uma pesquisa sobre isso. É muito difícil, porque tive que estudar mães e tias. Na Itália não é difícil entrevistar homossexuais. Você os encontra em bares gays ou discotecas, e eles costumam estar dispostos a falar. Mas quando você pede para contatar suas mães e parentes, a coisa fica delicada.
Talvez esses genes dêem a elas uma fertilidade maior, porque favorecem uma taxa menor de abortos naturais. Ou, de outra forma, poderia lhes dar uma personalidade mais extrovertida, que facilitasse entrar em relações. Nós achamos uma evidencia tênue de que essas mães e tias têm menos problemas com reprodução e parto, em geral. Já em personalidade, não achamos nada. Mas ficamos surpresos com outra coisa: mães e tias desses homossexuais, durante suas histórias de vida, se sentiram mais atraídas por homens do que as mães e tias de heterossexuais. Então, estamos procurando fatores genéticos que, de alguma maneira, influenciem a androfilia, a atração por homens. Isso significa que, se você for mulher, você se sente mais atraída por homens e, se você for homem, se tornará ligeiramente mais atraído por homens e pode acabar se tornando homossexual.

FOLHA – Mas como isso ocorre na célula? Vocês apontam para algum gene específico, algum hormônio?
CIANI – Eu estudo genética do comportamento. Então, quando eu sei algo, sei que existem genes de como esse traço se comporta. Uma vez que você descobre como o caractere controla o traço, não importa saber exatamente onde ele está. Algumas pessoas que tentam descobrir isso têm razões com as quais eu não concordo. Caçadores de genes às vezes querem vender uma patente envolvendo a localização do gene para fazer negócio. Poderiam, aí, sugerir algo que possa evitar que seu filho se torne gay ou sua filha lésbica. Não concordo com isso. Estou interessado na natureza humana, não em “vender” um filho “melhorado” para quem quer que seja.

FOLHA – Mas seu trabalho pode ajudar os caçadores de genes.
CIANI – Sim, mas agora eles teriam uma restrição maior. Isso não é uma doença, é um traço que confere vantagem reprodutiva a um dos sexos e desvantagem a outro. Se alguém interferir aí, pode mudar a orientação de um filho, mas também pode influenciar de maneira ruim a sua filha. Se há um gene ali e não é o gene de uma doença, significa que existe uma razão para ele estar lá.

FOLHA - Gays se sentirão melhor ao saber que a natureza, não só a criação, influencia suas opções?
CIANI – A comunidade gay sempre fica muito infeliz quando pessoas falam sobre esse assunto e os jornalistas começam a usar manchetes como “Descoberto o gene gay”. Isso é besteira. Nós, geneticistas comportamentais, sabemos há muito tempo que o debate de natureza contra criação é fútil. Todos os genes têm de se expressar em um ambiente. O ambiente influencia a expressão do gene, assim como o gene influencia o ambiente onde ele se expressa. Vou dar um exemplo. Todos nós temos genes que favorecem o roubo, porque se não tivermos o comportamento do roubo, não sobreviveremos em uma emergência onde ele pode ser necessário. Isso não significa que sejamos forçados a sermos ladrões.
Há genes influenciando algumas pessoas, tornando mais fácil para elas optar pela homossexualidade. Ser ou não ser homossexual, porém, é resultado de história de vida, além de genes. O que queremos saber é por que os genes que influenciam a homossexualidade existem. Um gene que reduz a taxa de reprodução das pessoas deveria desaparecer. Esse é o dilema darwiniano da homossexualidade. A posição da Igreja tem sido por muito tempo a de dizer que o homossexualismo seria um vício, um pecado contra a natureza. Com o nosso estudo, podemos dizer claramente que o homossexualismo não vai contra a natureza. Ele faz parte da natureza, e é demonstrado precisamente pela seleção sexual darwiniana.

FOLHA - O sr. também está estudando as lésbicas?
CIANI – Sim. Eu comecei a coletar muitos dados sobre lésbicas dois anos atrás, mas nosso modelo não funciona com lesbianismo. Esse é um fenômeno diferente, com uma dinâmica diferente e uma origem diferente.

FOLHA – O sr. tem dificuldade para publicar seus estudos?
CIANI – Muitos estudos são rejeitados em algumas revistas científicas. Uma hora antes de você me telefonar, um jornalista da revista “Science” me telefonou, porque estava fazendo uma matéria para o “público geral”. Foi estranho, porque eu tinha submetido meu estudo para a “Science”, antes da “PLoS”, e eles rejeitaram dizendo que não era “de interesse geral”. Não mandaram nem para os revisores.

PS: O termo “homossexualismo” foi utilizado pelo jornalista da Folha. No título eu troquei por “homossexualidade”.

Filed under: Pensando! | Tags: , , , , , | Max Reinert | July 11, 2008 Comments (1)

Ainda repassando textos recebidos pela lista de discussão. Esse agora é de Contardo Galligaris. E segue as discussões sobre as descobertas científicas recentes.

Ser homem ou mulher

A anatomia é o destino? Talvez, mas há lugares em que a mulher pode escolher ser homem

NOS ANOS 1960, “descobrimos” que a identidade de cada gênero, masculino, feminino ou outro (há outros, sim), era construída e imposta pela cultura em que vivíamos. Ou seja, nosso sentimento íntimo de ser homem ou mulher dependia dos valores que nos eram transmitidos: “alguém” nos oferecera bonecas ou soldados e nos propusera futebol ou costura.

A descoberta encorajou a militância igualitária, os papéis sociais de homens e mulheres se aproximaram e, enfim, tornou-se possível sentir-se homem e cuidar das crianças ou fazer bordado, e sentir-se mulher e pensar na vida profissional ou entrar no exército. Isso, sem que ninguém se atormentasse com dúvidas excessivas sobre sua identidade viril ou feminina.
Nas últimas décadas, houve um refluxo: hoje, sentir-se homem ou mulher nos parece ser, antes de mais nada, um efeito da diferença biológica entre os sexos.

Talvez seja por causa das próprias mudanças que mencionei acima: as diferenças culturais entre gêneros se tornaram menos relevantes e procuramos outras, mais “sólidas”.

Mas muitos dirão que aconteceu o seguinte: os avanços da ciência mostraram que, na constituição das identidades de gênero, hormônios, genes etc. contam mais do que as palavras e os comportamentos. Ou seja, pouco importa que eu vista você de renda ou de farda, você será ou se sentirá homem ou mulher como mandam a química e a física de seu corpo.

Paradoxalmente, essa posição, que pretende ser materialista, parece apostar na separação de corpo e mente, como se um mundo “real” de genes e hormônios existisse separado do da fala e dos atos da gente (que, cá entre nós, não é menos real). Acho mais provável que haja um mundo só, em que interagem fenômenos descritos de jeitos diversos, mas que pertencem a uma única realidade, a nossa, feita de descargas hormonais, obrigações indumentárias e comportamentais, genes, xingões, chapoletadas, neurotransmissores, conselhos, amores e carícias.

Além disso, é bom não esquecer que a primazia atual das explicações “anatômicas” é, por sua vez, um fato cultural. Ela é a evolução esperada da cultura ocidental moderna, que promove, dessa forma, sua melhor idéia: a de uma humanidade comum a todos, além das diferenças culturais. Por exemplo, para justificar a existência de direitos humanos universais, nada melhor do que uma definição da espécie a partir da biologia comum e não das culturas, que divergem.

Seja como for, o clima de hoje sugere que a anatomia seja o destino. Nesse quadro, é bom meditar sobre um extraordinário artigo de Dan Bilefsky, no “New York Times” de 25 de junho (em www.nytimes.com, procurar “Woman as Family Man”). Bilefsky viajou pelas montanhas do norte da Albânia, onde sobrevivem os restos de uma cultura tradicional, regida por um cânon rigoroso que, entre outras coisas, prescreve a vendeta entre famílias, de geração em geração: vocês matam um dos nossos, nós mataremos um dos seus -sendo que só podem matar e ser mortos os homens das respectivas famílias. “Abril Despedaçado”, de Ismail Kadaré (Companhia das Letras), dá uma boa idéia do clima local. Quem não leu pode assistir ao filme homônimo, de Walter Salles, que transpôs o romance de Kadaré para o norte do Brasil no começo do século 20.

Pergunta: o que acontecia, numa cultura como essa, quando só sobravam as mulheres de uma família? Pois é, no caso, encorajada pelo fato de que, nessa cultura, ser mulher era especialmente chato, uma virgem, livremente, podia decidir ser homem. Ela cortava o cabelo, vestia-se de homem, carregava faca e arma, sentava-se com os homens e com eles rezava na mesquita, matava e era morta nas vendetas e tornava-se patriarca da família.

Belefsky encontrou e fotografou várias mulheres-homens, na faixa dos 80 anos, mulheres que, 60 anos atrás, virgens, renunciaram à vida sexual e decidiram ser homens. E, de fato, sentiram-se e foram homens. Na verdade, ainda são: no pleno exercício de seu patriarcado.

O que assombra nessa história, aliás, não é só a construção cultural do gênero, mas a incrível liberdade que se revelava possível numa sociedade estritamente tradicional (a gente pensa, em geral, que a liberdade de escolha seja coisa exclusivamente nossa).

Queria prestar homenagem a Ruth Cardoso. O jeito foi escrever sobre algo que, onde quer que ela esteja hoje, talvez a interesse.

Filed under: Pensando! | Tags: , , , , | Max Reinert | July 10, 2008 Comments (2)

Seremos todos perfeitos!?

Recebi, através de uma lista de discussão este texto abaixo assinado por João Pereira Coutinho, que não conheço, mas achei extremamente interessante a maneira como aborda a questão. São questionamentos como esses que podem auxiliar em discussões mais consistentes sobre questões como manipulação genética, preconceitos e limites da ciência.

Pais, filhos e gays

A busca de super-homens é uma quimera longa e trágica na história humana

Será possível escolher as preferências sexuais de um filho? Não, não falo de preferências por ruivas, loiras ou morenas. A questão, levantada pela cibernética “Slate”, vai mais fundo: será possível mexer na base neurobiológica de uma criatura e “reprogramá-la” para ela gostar do sexo oposto?

Talvez. Conta a “Slate” que longe vão os tempos em que a homossexualidade era encarada como escolha pessoal ou produto do meio. A homossexualidade é um fato natural -como a cor dos olhos, a pigmentação da pele-, e estudos recentes apóiam a tese ao mostrarem diferenças visíveis no cérebro de homos e héteros.

Parece que os gays têm cérebros muito semelhantes aos das mulheres hétero. E parece que as lésbicas têm cérebros muito semelhantes aos dos homens hétero.

Mas os estudos não ficam restritos a esse retrato. Os cientistas dão um passo além e sugerem que importantes influências hormonais, durante e pouco depois da gestação, determinam a constituição neurobiológica do indivíduo. E, se os hormônios desempenham papel principal, abre-se a porta prometida: “reorientar” os hormônios, “reorientar” a preferência sexual do bebê.

A possibilidade recebe aplausos. A Igreja Católica, confrontada com tal cenário, esquece a sua própria doutrina sobre os limites da manipulação médica e apóia decididamente a busca de uma “terapia” capaz de “curar” a “doença” homossexual.

Mais impressionante é a opinião da maioria: questionada sobre a possibilidade de conhecer a orientação sexual do filho por meio de um teste pré-natal, a generalidade não hesitaria em recorrer ao aborto ou à “reprogramação” caso a sexualidade da criança apontasse para o lado “errado”. No fundo, quem não salvaria um filho do preconceito social ou da “doença” homossexual?

Fatalmente, a questão é desonesta. Aceitar as premissas do debate lançado pela “Slate” -aceitar, no fundo, que, por meio da ciência, é possível reverter a orientação sexual de um ser humano- é aceitar, implicitamente, que a homossexualidade é uma doença. E, aceitando-o, permitir que a medicina a trate exatamente como trata qualquer doença.

A realidade não legitima a fantasia. A síndrome de Down ou a espinha bífida, por exemplo, são doenças no sentido mais básico do termo: elas impedem que um ser humano tenha uma vida plena. Podemos discutir se a medicina deve e pode “manipular” genética ou biologicamente uma vida humana para erradicar esses males. E podemos discutir se esses males legitimam a interrupção da gravidez.
Mas essas discussões são distintas do problema inicial: reconhecer a Down ou a espinha bífida como fatores objetivamente incapacitantes de uma vida normal.

A homossexualidade não é uma doença. Pode ser motivo de preconceito social, dificuldade relacional, neurose pessoal -mas não é impeditiva de um funcionamento pleno do indivíduo nem põe em risco a sua sobrevivência futura.

Nada disso significa, porém, que não exista uma base neurobiológica capaz de explicar a orientação sexual. É possível e até provável. Exatamente como é possível e provável que certas propensões da personalidade humana -para a depressão, para a liderança, para a criatividade- estejam já inscritas na nossa natureza.

Mas isso não autoriza a medicina a procurar o paradigma do Super-Homem, dotado da dosagem certa de humor, capacidade de chefia, talento para a pintura e para o sapateado. A busca de super-homens é uma quimera longa e trágica na história humana.

Resta a questão final: e os pais? Confrontados com a possibilidade de “reprogramarem” a orientação sexual de um filho ou de descartarem-no via “aborto terapêutico”, terão os pais o direito de pedir à medicina esse instrumento seletivo e subjetivo?

Aceitar essa possibilidade é aceitar que, no futuro, os pais poderão determinar a vida futura dos filhos. Escolher a orientação sexual; o temperamento; a vocação intelectual; a excelência atlética ou estética.

Não duvido que a maioria, confrontada com tal hipótese, reservasse para a descendência o cruzamento ideal entre Brad Pitt, Albert Einstein e Pelé.

Mas um tal gesto seria uma tripla violência: contra a medicina e a sua função especificamente curativa; contra o mistério e a diversidade da vida humana; mas também contra os próprios filhos, condenados a habitar vidas que não lhes pertenceriam, mas que foram desenhadas pela vaidade, soberba e tirania de seus progenitores.

E vocês? O que acham?

Powered by WordPress | Design by Roy Tanck
SEO Powered by Platinum SEO from Techblissonline BlogBlogs.Com.Br