
O trânsito é uma coisa louca! Várias vezes, andando de taxi, vejo umas coisas e fico pensando comigo mesmo: Qualquer dia, um idiota desses que está dirigindo como um louco, se enfia embaixo de um caminhão e vai deixar a família chorando pelo “acidente”. Mas, como assim “acidente”? No mínimo “Imprudência”!
Temos como imprudente aquele que, através de uma conduta, afasta-se do mínimo que a apropriada execução exige. O exemplo clássico de excesso de velocidade por motorista em noite chuvosa é extremamente ilustrativo.
Afinal, todos sabemos quais são as regras do trânsito. Todos sabemos como devemos nos comportar nele. E, se escolhemos burlar essas regras, se escolhemos “durante a ação” não fazermos o que foi criado para nos proteger, estamos sendo imprudentes. Se, com consciência, quebramos uma “regra”, estamos sendo imprudentes.
Dessa forma, toda família tem o direito de chorar pelo seu ente querido que foi um imbecil imprudente e se enfiou (quase que literalmente) debaixo de uma caminhão. Mas não tem o direito de chamar isso de acidente. Não tem o direito de colocar a culpa no motorista de caminhão quando a imprudência foi daquele que morreu fazendo algo que ele sabia que era errado. Ou seja, o imprudente não é uma vítima.
Algo parecido ocorre no caso de André Baliera. Não se preocupem, não vou cair no discurso de “culpar a vítima” que está sendo impresso pelo advogado dos agressores. Não vou dizer que André foi imprudente ao revidar um xingamento que recebeu por estar andando na rua. Não vou dizer que André poderia “simplesmente ter virado as costas e ido embora”. Até porque, nós sabemos que num caso desses, quando essas “pessoas” tão obcecadas em agredir um homossexual são ignoradas no meio da rua, na maioria das vezes elas perseguem as vítimas e fazem questão de agredi-la, tendo ela feito algo ou não.
André não pode ser considerado imprudente porque ele não infringiu nenhuma regra de convivência. Ele não se colocou em um lugar de perigo voluntariamente. Ele não estava no lugar errado na hora errada. Ele não sofreu “um acidente”. André é vítima de um crime! Simples assim.
André tem a sorte de contar com três heroicas testemunhas que foram a delegacia e permaneceram lá para sustentar sua versão dos fatos. Essas testemunhas são heroicas não porque estão sustentando a versão de André, elas são heroicas porque foram a delegacia mesmo sabendo que crimes de homofobia ainda não são completamente levados à sério. Porque elas foram a delegacia mesmo sabendo que em muitos momentos é dificílimo fazer um B.O. sem ter que escutar alguma piadinha a respeito. Elas são heroicas porque se colocaram no lado mais fraco da história, porque não viram os jovens brancos, fortes e bem sucedidos como um exemplo a ser seguido.
Mas, então, o que tem a ver o exemplo lá de cima com o caso de André?
Assim como muitas pessoas chamam de acidente algo que não é acidente, outras tratam o caso de André como um caso isolado…ou pior, como um caso simples de violência cotidiana. Quando, na verdade, o caso de André (além do óbvio crime cometido pelos agressores) já pode ser considerado como “negligência”.
Negligente demonstra-se o agente ao na prática de proceder, que revele e caracterize omissão, em prejuízo de uma atitude que deveria ser originalmente positiva. Em negligência incide, por exemplo, o enfermeiro que deveria realizar a troca diária de ataduras no ferido, e não o fazendo, agrava sua lesão, ou o edificador que, sabendo que um lote depauperado produto foi enviado junto com os demais, não providencia sua inutilização. Sintetiza, portanto, um proceder negativo, uma abstenção de procedimentos seguros fixados em norma ou regulamento. Ou seja, negligente é aquele que não faz quando tem que fazer.
Enquanto a bancada evangélica continuar legitimando a violência contra os homossexuais (porque é isso, na verdade, que ela está fazendo!), sempre haverá algum brutamontes achando que sairá impune ao praticar atos como o desta semana.
As testemunhas agiram corretamente ao se colocar ao lado da vítima. André agiu corretamente ao não aceitar ser tratado como cidadão de segunda classe. A polícia agiu corretamente ao indiciar os agressores por tentativa de homicídio. Esperamos agora que a justiça faça sua parte.
Agora é a hora de apontar nossos dedos para o Congresso Nacional. Ou melhor, para todos aqueles que tendo consciência da quantidade de agressões/tentativas de homicídios/crimes contra homossexuais teimam em relativizar esse sofrimento. Apontar o dedo para todas as pessoas que insistem em entrar nos grandes portais e tratar as vítimas de homofobia como pessoas em busca de atenção da mídia e/ou “privilégios”.
Da negligência para a cumplicidade existe uma distância muito pequena… quase imperceptível!